quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Os 10 mais fortes de Santa Rita contra o vírus da Internet (Por Ivan Kallás)

Estou em palpos de aranha. Vagabundo de carteirinha, há bons anos. Voluntário social no tempo vago. Descontando dormir e higienizar, tenho 15  horas por dia pra ficar à toa. E fofocar. Como ou belisco sobre o teclado, repreendido por meu filho, aluno da FAI, que não admite misturar água, comida e eletrônica. Além disto, continuo voluntário fila boia. Socializo prosa e fofoca, on line ou em tempo real, por um bom petisco. Quando estava em Santa Rita, todos da família me queriam por perto pra conversar fiado. Fazia via-sacra pela rua da ponte e adjacências. Sempre regalado com quibe, babahanuche, hreib, rrrara e quitutes da colônia. Saudade!
À esquerda, o temido Dito Cutuba. À direita, a lendária lutadora Olga Zumbano.
Descontando 6 anos de mamadeira e barra da saia, tenho 60 de vida consciente. Versão 6.6, original do Vale da Eletrônica, com matéria-prima das arábias. Desde então, me empenho em descobrir o que vim fazer aqui. Ou como perguntava ZéAbrão, adaptando o filósofo grego: “Da dondi nóis véin? Brá ondi nóis vái? I cuma nóis fica?” Meu velho avô pouco se lixava pro “quem sou”. “Num imborta. Ieu qué sabê cuma nóis vai ficá da ôtro lado.” Sempre se preocupava com o post mortem. Jamais perdoou Lázaro e os ressuscitados da bíblia. Que não contaram como era. “Ninguém birguntou brá ielis, cumu é du lado di lá? Bovo burro. Ieu, si tava lá, breguntava.”

Enfrento agora imposições do editor que só quer saber de novos causos antigos. Com Dito Cutuba. Zé Mecânico. Quer promover concurso. O homem mais forte de Santa Rita. Estulano? Zé Alfredo? Mas estes eram fisiculturistas. E como é que foi a luta no circo com o Broto Cubano? É este o nome da moça? Aquela que deu uma surra nos valentões. E ainda diz que posso apelar para Maria Cascavé e Tombahomi. Primeiro atenta contra minha moral que não conheci nenhuma destas senhoras caridosas. Que teriam feito a alegria de várias gerações em seu playground. Apenas ouvi falar. Mintira Terta?

Nem peguei vírus por ali. Pego agora na internet. Com moças e senhoras de boa família. Como a prima de SP acaba de confirmar. Também sofri ataque de spam na internet que me deixa mal com 400 amigos virtuais. Fazendo pretensa propaganda de minha pseudo habilidade em resolver CONTA NEGATIVADA em 24h, por apenas R$99,90. Por este preço e condições até eu dava calote no banco, e limpava a cara depois. Mas calote grande, como num banco que insiste em me avisar que tenho altos créditos. Juntava dois ou três bancos. Beleza, mas como vou pagar com  aposentadoria de R$640,00 de professor? Igual ao que ganhava na FAI? Devia juntar uns quatro bancos, dar o cano e ir para Buenos Aires assistir à temporada de tango com um amigo, fotógrafo internacional.

Socorro, Dito Cutuba! Socorro Zé Mecânico! Perdi minha infância e minha cultura, jogando bolinha de gude, pião, trocada por paranoicas e lasers. E agora pego vírus sem pegar mulher. Na internet. Sem nem ter frequentado Maria nenhuma. Tombahomi ou Cascavé. Que mundo é este? Quem afinal é o mais forte de Santa Rita e que possa nos ajudar? Linear? Leucotron? FAI? Inatel? Apesar do equívoco do editor, Dito Cutuba continua invencível. Mais que o Vencedor Invencível dos irmãos Seda. Pois, juntos, foram imbatíveis e separados, levaram surras (empresariais). Mas quem apanhou do Broto Cubano foi o Zé Mecânico. Tá tudo registrado num livro de casos cujo autor não me lembro, mas é personagem forte da cidade. Testemunho inquestionável. Pode ser Drs. Elias ou Adami, que publicaram casos interessantíssimos e divertidos. E curaram muita doença contagiosa. Ou seria quem? Não importa. Naquela briga eu tava lá. Espiando as moças valentes. Sem entender porque ficava todo mundo assanhado. Ou entendia?

Pra não ser mentiroso, confesso, não vi o Zé apanhar. Assisti o circo na primeira função. Vi a muiézada desafiar a homarada santa-ritense. E a Olga Zumbano, com cara e jeito de homem, falou que nem ia topar. Deixava para o Broto Cubano. Mesmo assim, ninguém se atreveu. Eu pequenino, fiquei com a maior vergonha. Ênio, do meu lado, comentou: “Puta merda. Não tem homem nesta cidade. Oia lá o fulano se escondendo. Se eu tivesse tamanho ia lá e dava um coro nelas tudu. Atrevidas. Vou lá falar com o Zé Mecânico.”

Correram todos atrás do Zé. Que era muito forte e com fama de valente. Sem grana pra função de Domingo, gasta na Matinê do cinema e, na praça, só ouvi contar do lado de fora. Junto com os que encontraram a bilheteria esgotada, tentando ver por baixo da lona. O Broto Cubano acabou com nosso campeão que saiu difininho pelos fundos. E olha que levantava motor nos braços. Meu vizinho de rua da cadeia tratava bem a gente e debochava quando não conseguíamos levantar as peças. Mas numa infeliz desavença nos ensinou a maior tristeza da vida: perder amigos, com uma pancada de chave inglesa. Foi meu primeiro velório. No meio da oficina. 

Fiquei assustado. Se um homem forte destes morre e nós que somos fracos? Comentava Linguiça ou sei lá quem. Pra onde ele foi? Será que vamos ver de novo? Existe vida depois da vida, ainda que seja virtual? Imune de vírus? Sem ataque de spam? Meus filhos hoje vivem brigando com demônios. Mas não é na realidade. É nos jogos da internet. Eu sonho com anjos.

Antes que comece a chorar, ou talvez para isto mesmo, recordo a cantora dos desiludidos, Maíza Matarazzo. “Meu mundo caiu.” Hoje dedilho estas teclas, enquanto no facebook, o apito me avisa que um amigo me chamou. Quer saber o cardápio de sexta-feira, na confraria do papo. Vai trazer fígado pra fazer acebolado ou, se achar, sardinha pra assar na brasa. Já catei as bostas de cachorro pra ninguém pisar. Pelo menos nisto meu mundo é real.

E as lembranças também são? Não conheci as Marias da 13 de maio, nem Joanas. Nem sabia, na infância, porque tantos homens fortes iam visitá-las, expulsando a meninada de perto. Sei de parentes que elas jogaram por cima do muro. Bêbados. E eram encontrados pela manhã, dormindo, por empregados do meu avô. Sô Dito ajeitava rápido a situação. Dindinha fingia que não via. Sei também que o Dito Cutuba jogou um neguinho a três metros de altura. Esta eu vi. Foi na rua da cadeia também. Era moleque valente, forte. Toda vez que passava, provocava a meninada. O Ênio queria enfrentar. Meus irmãos e amigos seguravam, pois o neguinho era muito forte. Atrevido. Até que o Dito Cutuba ficou sabendo. Se escondeu atrás do muro. E nós, de inocentes, brincando na rua, aguardando, até que no horário habitual, o cabra passou. Veio de longe. Bulindo. Seus bosta, tudu covardi. Ninguém mi enfrenta? Quem qué apanhá primero? É tudu muiézinha. Corre pra mamãe. Corre seus fdp*.

Foi quando o Dito saiu de trás do muro. Tá falando comigo? Surpreso, o cabra parou do outro lado do passeio. Mediu o tamanho da encrenca. Fez cara de medo e já foi catando com os olhos. Meio agachado passou a mão numa pedra bem grande. Que dava pra quebrar a cabeça de um boi. E foi marchando de ré, pra escapulir. Mas o Dito deixou? Saiu como locomotiva ou touro enfurecido. O cara levantou a pedra e nem teve tempo de jogar. Voou três metros com a trombada e o golpe. Caiu. Tentou levantar. Levou três na cara. Dois na barriga e se inscreveu nos cem metros rasos de velocidade. Antes de piscarmos e entendermos a situação, o caboclo já tava na venda da esquina, para nunca mais passar por ali. Nisso, ganhou do Cutuba. Campeão de fuga veloz. E nós tentando carregar nosso herói. Amigo dileto de infância. Entre tantos outros.

Oferecimento: Café com Arte

5 comentários:

  1. Luiz Roberto Kallas15 de outubro de 2012 04:56

    Boa essa Ivan. Que bom que você voltou.

    Luiz Roberto

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    1. Voltei. Voltei para ficar. A minha saudade é grande ......
      Só que o Editor não me quer mais. Diz que estou muito enfezado.
      kkkkkkkkkkkkkkkkkk

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  2. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Me fez lembrar uma história antiga de Campanha, minha terra natal, quando um cara deu uma coça no outro e o fez assinar um recibo da surra!!! E um outro que, salvo engano, de Baependi, tava interpretando Cristo e perdeu a paciência com o soldado Romano, lhe tomou o chicote durante a procissão e desceu o cacete... Eta causos do sul de Minas.

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  3. Internetando por aí, encontrei este artigo que reli.
    E uma referência a Olga Zumbano. Tia de Éder Jofre.

    Olga Zumbano, tia do ex-lutador Éder Jofre, já foi chamada de "A Rainha do Ringue". Aos onze anos, a menina vestiu as luvas para uma luta no Parque Antártica e nunca mais parou. Depois do casamento com Hans Nobert, campeão austríaco de boxe, ela trocou o pugilismo pela luta livre. Lutou até os sessenta anos.
    Em 1990, ela treinou Carla Camurati, Isadora Ribeiro e mais seis atrizes que estavam fazendo o papel de lutadoras na novelas Brasileiros e brasileiras, do SBT.

    Este texto é um excerto do artigo Olga zumbano da enciclopédia livre Wikipédia. Na Wikipédia, está disponível uma lista dos autores.

    http://pt.cyclopaedia.net/wiki/Olga-zumbano

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