quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Hack Town chega ao Sul de Minas com palestras, debates e música ao vivo

Evento de formato inovador acontece no dia 20 de fevereiro em bares e restaurantes de Santa Rita do Sapucaí, e promete reunir profissionais de todo o país, em áreas como tecnologia, música, empreendedorismo e economia criativa. Ingressos estão sendo vendidos
 online a preço promocional de R$20,00.
Inspirado em eventos de grande impacto como o SxSW , nos Estados Unidos, e o Festival Path, em São Paulo, o Hack Town 2016 (www.hacktown.com.br) promove mais de 70 atividades no sábado, dia 20 de fevereiro, das 08:30 a 00:00. Serão palestras, debates, oficinas, shows autorais, exposições e um karaokê de ideias, tudo acontecendo simultaneamente em dez locais - entre eles bares e restaurantes, um próximo ao outro. Trata-se do Hack Town, que acontece em Santa Rita do Sapucaí, cidade de 40 mil habitantes, localizada em Minas Gerais,  a cerca de 220 km da cidade de São Paulo, reconhecida como polo tecnológico e criativo.

A primeira edição do Hack Town tem como mote “Ideias diferentes. Conexões de impacto”, o que, segundo os organizadores, representa exatamente a proposta do evento. Para João Rubens Fonseca, um dos idealizadores, o Hack Town é destinado a todo mundo que se interessa por criatividade e inovação, seja qual for a área de atuação. A ideia, segundo ele, é unir tribos diferentes e, a partir disso, gerar conexões de impacto.

Para Marcos David, também organizador, ”qualquer pessoa precisa fazer diferente e inovar, e isso vale para um músico, para um pesquisador, para um chef, para um advogado ou para um engenheiro”. Portanto, reforça David, ”o Hack Town é um encontro para reunir pessoas curiosas, e não para segregar pequenos grupos, como geralmente acontece em eventos de conhecimento”.

Entre os assuntos das palestras estão Artes, Cidades e Carros, Lean Startup, Star Wars, Música, Alimentos Orgânicos, Futurologia, Esportes. Tecnologia Assistida, Competências Profissionais do Futuro, Design Thinking, Processos Criativos, Empreendedorismo, Ufologia, Metodologias de Inovação, Cerveja Artesanal, Economia Colaborativa, entre muitos outros. Segundo Carlos Henrique Vilela, também da comissão organizadora, os profissionais que fazem a diferença no mundo atual, em qualquer área, possuem conhecimento especializado, mas também precisam de um amplo repertório sobre assuntos aparentemente desconectados. Afinal, quando se conectam todos esses pontos, é que nascem as grandes ideias, ressalta.

O principal objetivo do Hack Town, segundo Vilela, é abrir novos referenciais aos participantes, através da exposição a conteúdo diverso e networking com participantes de áreas diferentes. O Hack Town acontece no dia 20 de fevereiro, sábado, de 08:30 a 00:00, em Santa Rita do Sapucaí. Para obter mais informações sobre o evento e comprar os eu ingresso pelo preço promocional de R$20,00, visite o site www.hacktown.com.br

Serviço:

Hack Town
Data: 20 de fevereiro
Horário: 8h30 a 00:00
Local: Santa Rita do Sapucaí, Minas Gerais
Valor: R$ 20,00

Fotos ilustrativas:

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Robô "mineiro" que pinta parede sozinho é apresentado no Campus Future 2016

O protótipo de uma máquina que realiza pinturas automaticamente, desenvolvido por alunos do curso de Engenharia de Automação e Controle do Inatel, vai estar na Campus Future 2016, que é uma exposição de trabalhos acadêmicos realizada dentro da Campus Party, que acontece de 26 a 31 de janeiro, no Anhembi, em São Paulo. O projeto Smart Paint é dos alunos Francisco Souza Neto, Raví de Paula, Eduardo dos Reis Dionísio e Antônio Camargo, e foi apresentado na Feira Tecnológica do Inatel - Fetin, em outubro do ano passado.
O projeto surgiu depois da experiência do estudante Eduardo dos Reis, quando pintou o próprio quarto. "Além de ser cansativo, gastei muito tempo e muito material. Por isso, resolvi encontrar na tecnologia uma solução", conta o jovem que reuniu outros três amigos na missão. Brincadeiras à parte, o foco do projeto é a construção civil com a proposta de minimizar o desperdício de tinta ou outro produto utilizado na pintura, além da redução do tempo de trabalho em relação ao tempo gasto pintando manualmente.

Ainda por ser protótipo, o robô realiza a pintura numa faixa de 40 centímetros na vertical e um metro na horizontal, depois se desloca outros 40 centímetros e faz o processo novamente. Isso se repete até ser feita a pintura do cômodo programado. O protótipo foi montado com materiais recicláveis e, agora, a equipe busca parcerias para melhorar o projeto e construir um novo equipamento. "Ao receber o comunicado que fomos selecionados para a Campus Future 2016 tivemos a certeza que todo nosso esforço para o desenvolvimento do projeto valeu a pena. A expectativa agora é de fazer o melhor possível para que nosso projeto e o nome do Inatel sejam bem representados, além de ser uma vitrine que pode trazer parcerias para o Smart Paint"

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Braz Fernandes Ribas: um nome se escreve fundo (Por Jonas Costa)

“Letras são coisas, e não imagens de coisas”. A frase é de Eric Gill, tipógrafo britânico, mas poderia ser de seu contemporâneo Augusto Telles, maestro santa-ritense que se viu obrigado a abrir uma oficina gráfica para imprimir as próprias partituras. Outra Telles, minha contemporânea Nídia, preferiu criar um blog e nele descreveu os atributos dos ajuntamentos de letras: “Para mim, as palavras têm gosto, têm cheiro, têm alma”.
Se as palavras são capazes de dar vida a coisas, essa força mágica deve estar presente também nos nomes próprios. “Um nome – cantam Beto Guedes e Ronaldo Bastos em sol com sétima – se escreve fundo”. Braz Fernandes Ribas está, certamente, entre os nomes indeléveis que conheço. Primeiro, porque não conheço dois iguais. Segundo, porque pertenceu a alguém que deixou marcas profundas por onde passou.

Trago esse nome gravado com força na memória e na alma, mas demorei a entender por quê. Eu o li pela primeira vez no final da década de 1990, na página 232 do livro A Diocese de Pouso Alegre, no Ano Jubilar de 1950. Essa publicação, organizada pelo cônego João Aristides de Oliveira, no 50º aniversário de criação do bispado, resume a história de cada uma das paróquias da região, entre as quais a de Santa Rita.

Sem Braz Fernandes Ribas, a Paróquia Santa Rita de Cássia talvez não existiria. Teria, no mínimo, outra trajetória. E outra seria a origem da cidade que se formou em torno da primeira capela dedicada à padroeira. O resto da história todos nós conhecemos: cumprindo promessa, Manoel e Genoveva da Fonseca doaram terras para a construção da igrejinha, que virou matriz e depois santuário, presenciando o progresso à sua volta.

A origem de Santa Rita do Sapucaí, porém, não se circunscreve aos oito alqueires de fé cedidos em 1821 pelo casal piedoso sobre o qual pouco se sabe, quase nada. Nos últimos anos, pesquisas históricas desenvolvidas por alguns de nossos conterrâneos têm resgatado o protagonismo exercido pelo capitão Braz Ribas, no período de formação do núcleo populacional que resultou na cidade que temos hoje.

Segundo o estudo Santa Rita do Sapucaí – Sua História Revisitada (2009), do saudoso Adirson Ribeiro, nossa terra conservou o nome de Santa Rita do Vintém até aproximadamente 1850 por “ter tido sua origem às margens do Riacho Vintém, na Fazenda Água Limpa do Vintém, de propriedade do Capitão Braz Fernandes Ribas”. Nos oratórios dessa e de outra fazenda, a da família Ribeiro de Carvalho, concentravam-se os ofícios religiosos, antes e depois da primeira missa no município, celebrada em 1825.

“Dono de grande sesmaria e respeitado pela Igreja e pelo Estado”, nas palavras do professor Ivon Luiz Pinto, Braz Ribas conquistou prestígio social e político no Sul de Minas. Em 1829, elegeu-se suplente do juiz de paz José Joaquim Leite Ferreira de Melo, pai do cônego e futuro senador José Bento Leite Ferreira de Melo, de Pouso Alegre. Dois anos mais tarde, foi um dos primeiros cidadãos santa-ritenses a aderir à Sociedade dos Defensores da Liberdade e Independência Nacional, liderada pelo legendário José Bento.

Coincidência ou não, José Bento era o nome de um dos filhos de Braz e sua esposa, Floriana Maria da Conceição. Os outros dois se chamavam Roque e Ana Victória. Que importância têm esses nomes? Para a cidade, não sei. Para mim, além de curiosidades históricas, são dados genealógicos. Há quatro anos, descobri que sou tetraneto de Ana Victória – portanto, pentaneto do capitão Braz.

Devo esse desvelamento de minhas raízes familiares a dois brilhantes pesquisadores dos primórdios de Santa Rita: Adirson Ribeiro e seu discípulo Luiz Gustavo Torquato Villela, o Neco. Adirson produziu, em 2007, com a contribuição de Neco, um estudo a respeito da família Vilela. Ao tomar conhecimento desse trabalho, em 2011, pouco tempo após a morte do autor, encontrei em suas páginas o elo perdido entre mim e Braz: Quirino Antônio de Araújo e Silva.

Quirino era o marido de Luiza Cândida Vilella Ribas, filha de Ana Victória e neta de Braz. É outro nome que se escreve fundo em mim. Quando o li no estudo sobre o clã dos Vilela, de imediato me soou literalmente familiar, já que esse prenome aparecia ao lado de Luiza Cândida, no topo da árvore genealógica que eu havia rabiscado na infância. Poderia estar diante de uma incrível combinação de homônimos, mas só precisei de uma rápida conversa com minha avó paterna, neta do casal, para confirmar o parentesco.

Emoções conflitantes tomaram conta de mim naquele momento. Estávamos ali Haydeé, minha avó, José, meu pai, e eu – três gerações de descendentes de um homem que participara da fundação de Santa Rita e que, ao mesmo tempo, tivera grande número de escravos. Orgulho ou vergonha? Difícil descrever o que senti, pois tinha acabado de lançar um livro-reportagem sobre a comunidade negra santa-ritense, cujo capítulo inicial, No Tempo do Cativeiro, relata a escravidão no município e cita meu pentavô Braz.

Passei a enxergar meu livro como um involuntário, tardio e insuficiente pedido de perdão de minha família aos descendentes dos escravos que a ela pertenceram. Por outro lado, comecei pesquisas e contatos para investigar os primeiros anos de Braz Ribas, vividos em Portugal. Sabia, basicamente, que ele nascera em meados da década de 1770, na “freguesia de São Lourenço de Paranhos, bispado de Braga”, conforme seu testamento.

O primeiro resultado de minha modesta investigação histórica apareceu timidamente em janeiro de 2013, quando recebi por e-mail a resposta a uma mensagem que havia encaminhado à Junta de Freguesia de Paranhos questionando se aquela era a localidade que eu procurava. Em menos de 500 caracteres, o então presidente da junta, José Manuel Dias Fernandes, manifestou alegria por meu interesse e pediu dados de minha família para “trocar informações culturais”.

Ao envio dos dados solicitados seguiram-se enorme expectativa e longo silêncio. Portugal estava em transe e Paranhos, em transição. Em decorrência da crise financeira global deflagrada em 2008, os três grandes credores da dívida portuguesa (FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia) impuseram ao país, entre outras medidas, a reorganização territorial das freguesias, que são subdivisões dos municípios.

Com pouco mais de 100 habitantes, Paranhos acabou agregada, em setembro de 2013, a outras duas localidades do município de Amares. Enquanto se formava a União das Freguesias de Caldelas, Sequeiros e Paranhos, eu tentava, sem sucesso, restabelecer contato com o outro lado do Atlântico. Como que trazida pelo mar, no interior de uma garrafa, a segunda mensagem chegou um ano, nove meses e 11 dias depois da primeira.

Quem me escrevia agora era o novo presidente da Junta da União das Freguesias, José Manuel Fernandes Almeida. Figura extremamente simpática e atenciosa, mantém comigo extensa correspondência eletrônica, desde então. Graças à colaboração dele e do amigo Neco Torquato Villela, estou prestes a ver realizado um sonho: Santa Rita e Amares declaradas cidades-irmãs pelas autoridades dos dois municípios.

Um ano atrás, localizei no Arquivo Distrital de Braga, pela internet, o registro de batismo de Braz Fernandes Ribas, nascido no dia 11 de julho de 1776, exatamente uma semana após a Declaração de Independência dos EUA. Ele morreria em 22 de maio de 1848, dia de Santa Rita de Cássia, no povoado que ajudara a criar. Nasceu para fazer história; deixou rastros ao morrer. Não viveu em vão; seu nome, enfim, renasce.

Oferecimento:

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Educação para o pensar (Por Danlary Tomazini)

E se crianças descobrissem que cozinhar os alimentos é possível devido a reações Químicas? Que a Física entendeu como nos locomovemos ou por que nos mantemos em pé? Que andarmos em ruas de asfalto ou de paralelepípedos está relacionado à Geografia? E se as escolas deixassem de ser receptáculos para crianças cujos pais trabalham fora, ou centros de formação em massa de mão de obra? E se todos compreendessem que, mesmo a matéria que menos interessa, só está lá porque nos auxilia a entender quem somos, como somos e, até mesmo, por que somos? E se o aprender se tornasse fonte vital da existência?
Nesse mundo ideal, as escolas teriam tantas aulas práticas quanto fosse possível. Acabariam as carteiras enfileiradas e os círculos de gente tomariam conta de todos os espaços. Os alunos aprenderiam que ter empatia é um conhecimento muito importante, o respeito seria natural e não fruto de imposição. A participação seria inevitável! Quem é que não quer fazer parte de uma rotina assim?

Parece utopia, mas não é. Não precisamos mudar o mundo todo, apenas a nossa cidade! 

Um ensino assim é um dos objetivos da “Educação para o Pensar”. Antes de formar profissionais, as escolas precisam formar pessoas. Ainda que a educação seja de responsabilidade dos pais, é na escola que nossos filhos passam a maior parte do tempo. Sendo assim, por que não incutir maiores reflexões na vida dos pequenos? Quem sabe, desta forma, um dia eles se tornarão os pais que os profissionais de ensino tanto sentem falta hoje: os que interagem com a escola em prol da comunidade. 

Essa é uma meta a longo prazo, mas estamos caminhando para concretizá-la. Já tivemos o 1º Curso de Capacitação em Educação para o Pensar e o 1º Encontro de Filosofia para Crianças e Jovens – Educação para o Pensar de Santa Rita. O próximo passo será finalizar o projeto de Lei que tornará a disciplina obrigatória no Currículo Municipal de Ensino e levá-la à Câmara para votação. 

Se o mundo não é mais o mesmo, por que a Educação deveria ser? 

(Danlary é moradora do bairro Rua Nova)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

A experiência de produzir um livro (Por Ivon Luiz Pinto)

A ideia de fazer um livro sobre a História desta cidade apareceu há muito tempo. Aos poucos, muito devagar como o rastejar de um caracol, ela foi tomando forma, criou substância, alimentou-se das vitaminas necessárias e, por fim, nasceu. Sua geração começou lá pelos anos 70, quando lecionava na E.E. Sinhá Moreira. Frequentemente, pedia que os alunos fizessem pesquisa sobre a pessoa que dava nome à sua rua. Guardo com carinho muitos desses trabalhos e alguns foram expostos no lançamento do livro “Pioneiros Visionários”. Foi a partir dessa experiência que comecei, seriamente, a pesquisar a origem e a vida desta cidade. Muita coisa aconteceu como viagens malucas pelo interior do município e por outras cidades, algumas próximas e outras distantes. Vinte ou trinta anos depois, dois ex-alunos e grandes amigos, se mostraram entusiasmados pela pesquisa histórica e vasculharam arquivos e bibliotecas em busca da verdade sobre esta terra. Em meu livro tem muita participação destes dois, Carlos Romero e Neco Torquato. Minha família colocou fogo no estopim dizendo que eu não poderia guardar tanta informação só para mim, não oferecendo ao povo oportunidade de conhecer tanta beleza. Aceitei o desafio e construí o livro. A Casa da Festa, José Carneiro Pinto, do Salão D. João Bergese estava repleta, na noite de 11 de dezembro, com amigos, colegas e ex-alunos, que ouviram uma História que começa com a exploração do ouro e a formação do Sul de Minas. A procura do ouro trouxe pessoas para o leito do Mandu e, depois, para o Sapucaí. Aos poucos, foram chegando famílias e se apossando da terra, estabelecendo propriedades e fazendo plantações. Depois, veio o manejo do gado e, mais tarde, o café.

Quando a família de Manoel da Fonseca chegou nesta parte da Mantiqueira, encontrou “uma razoável população nas regiões do Bom Retiro, além da serra do Mata Cachorro, espalhando-se pela Bela Vista, o  Paredão e as Furnas, mais para o sul do chamado Pouso do Campo, até as terras banhadas pelo ribeirão do Vintém e o córrego do Mosquito”. Ficaram também sabendo dos métodos usados pelo governo português para cobrar o imposto sobre o ouro e evitar seu contrabando. Tudo está no livro que conta as peculiaridades de Braz Fernandes Ribas, Capitão Manoel Joaquim Pereira e outras pessoas que residiam nestas terras, antes da visita de Manoel da Fonseca e Janaubeva Maria. Esse histórico casal que doou as terras para uma capela à Santa Rita não morava aqui e aqui não morreu. Nenhum documento existe mostrando que eles morassem aqui, mas existe documentação provando que eles doaram as terras para a Santa, em pagamento da promessa feita, na doença de Manoel.Quer saber mais? Leia o livro! Locais de venda: Revistaria Caruso, Loja Schmidt e Bazar do santuário.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Apenas um quarto (Por Salatiel Correia)

As batidas do coração aceleravam à medida em que o meu carro passava pelo trevo de Santa Rita do Sapucaí. Trevo, hoje, embelezado com uma escultura da santa da qual porta o nome. Fazia bem uns trinta anos desde que pisara pela última vez na terra de dona Sinhá Moreira.
De imediato, senti uma necessidade, vinda do interior da alma, no sentido de atar as duas pontas de minha vida. Naquele momento, consegui unir o que hoje sinto com o que um dia senti, quando cheguei, pelas rodas da Transul, a um lugar ao qual jamais tinha ido. A lupa de meu tempo voltou há 38 anos, quando, ainda um rapazola mal saído da adolescência e repleto de insegurança, aventurei-me a navegar em mares, por mim, nunca antes navegados.

A sensação dessa junção momentânea de meu passado distante se tornou presente. Bateu-me, então, um misto de melancolia e alegria. Era natural essa sensação, pois o atar das duas pontas da vida cria um fluxo momentâneo em que passado e presente se fundem numa coisa só.

“Aqui em Santa Rita, basta dar uma volta na praça ou ir ao mercado para encontrar todo mundo.” Assim me disse o simpático porteiro do Hotel Tadini. Fiz o que ele me disse. Já era assim há 38 anos. Santa Rita, embora tenha crescido, continua acolhedora. Ainda encontramos pessoas conhecidas no centro da cidade.

É bem verdade que velhos hábitos já não existem mais. Não existe mais o vaivém de um lado para o outro da praça, quando a missa acaba, mas o coreto da praça continua o mesmo. Como continuam os mesmos o prédio do fórum e o velho cinema, a igreja São Benedito e a casa do meu saudoso amigo Mauro Longuinho.

Nesse meu trafegar na terra de dona Sinhá, meu coração acelerou mais no momento em que me aproximei da mais profunda lembrança. Chegara ao mercado, bem de frente onde, por três anos, morei nos meus tempos de Santa Rita. A loja estava lá do mesmo jeito que a vi pela última vez, há mais de trinta anos: a Casa Marques, do meu querido amigo José Élcio Marques, carinhosamente conhecido por Brechó.

Parei o carro. As lembranças, cada vez mais intensas, impulsionavam mais ainda as batidas do coração. Atravessei a rua.

- Goiano, quanto tempo! - Assim me recebeu a simpática dona Dita, esposa de um querido amigo. Senti aquela alegria interior que a gente sente quando quer bem um ao outro.
- Cadê o Élcio? - Indaguei.
-Está lá no fundo da loja, - respondeu dona Dita.
Segui, em passos acelerados, rumo ao fundo da loja. Ia do presente ao encontro de meu passado. Lá estava ele, de costas, tomando café com a nora e um dos filhos, o Janilton. Este, quando eu morava no fundo da loja do pai, engatinhava. Hoje é um homem feito, pai de família. Como o tempo passa!

Toquei no ombro de meu dileto amigo que, naqueles tempos, foi um pai para mim. Ele se voltou com aqueles olhos verde-claros que nunca me saíram da memória. Deu-me um caloroso abraço fraterno. Abraço de dois amigos com uma amizade solidificada pelo tempo.
- Vem cá, goiano, ver como está seu quarto! - O coração disparou mais ainda. Era apenas um quarto, mas significava muito para mim.

- Fiz dele um depósito - me disse Élcio.
- Tem ainda o banheiro? - Perguntei.
- Sim. Não mexi nele.

Nisso, o atar das duas pontas de minha vida acelerou o fluxo entre o início e o fim desses 38 anos. Quanta água correu neste rio. Quantas alegrias! Quantas intempéries vencidas ou esquecidas! Amadureci. E lá estava eu recordando um rapazola na procura incessante pelo seu porto seguro. Hoje, caminhando para a terceira fase da vida, restou-me dizer ao Élcio e à dona Dita Marques o quanto eles foram uma família para mim. Foi uma alegria rever essa gente tão generosa para com o próximo. Gente que tanto quero bem. Amigos para sempre e que carrego no fundo do coração!

(Salatiel Correia é Engenheiro, Bacharel em Administração de Empresas, Mestre em Planejamento. É autor, entre outras obras, do livro Cheiro de Biblioteca. Obras que fazem nossa época.)

OPINIÃO: Ano eleitoral. Em quem NÃO VOTAR nas eleições de 2016

Entramos em ano eleitoral. Com ele, surgem os tapinhas nas costas, as promessas fáceis, o riso frouxo e os conchavos de gente não sabe fazer mais nada da vida a não ser mamar nas tetas do poder. Os candidatos mais bem cotados são aqueles que concederam o maior número de favores pessoais. São incapazes de gerir a própria vida, mas assumem as rédeas do município e acabam escolhidos para administrar uma comunidade inteira. Nisso, erra o eleitor.
A função de um vereador é saber avaliar as necessidades da população e produzir leis que irão beneficiar a todos. Ele não trabalha para o prefeito, nem para os amigos e nem para si mesmo. Ele trabalha para o COLETIVO! Acontece que, em boa parte dos casos, nem os próprios legisladores sabem direito o que estão fazendo na Câmara. Passam dias na porta da prefeitura pedindo favorzinho pra este ou aquele amigo, usam a remuneração que ganham para comprar o eleitor, conceder esmolas e ainda tem gente que se deixa corromper por esta forma velada de corrupção. Tais eleitores se esquecem que, quando precisarem de um bom emprego ou de um hospital decente, encontrarão dificuldades porque trocaram alguém capaz de atrair investimentos ou produzir uma boa lei, por um suposto "amigo" que nos corrompe e dificulta as coisas nos quatro anos seguintes. 

O problema do brasileiro, como um todo, é pensar apenas em si mesmo. Se vemos, hoje, um país corrompido pela roubalheira, se os preços sobem, se a saúde é ruim, se não temos boas escolas e dependemos dessas pessoas que estão no poder, também somos culpados. Mais do que ninguém, somos responsáveis pelo futuro porque ajudamos a eleger estas pessoas que deveriam nos representar e, muitas vezes, não o fazem.

Há também o problema das famigeradas legendas. Não votamos em candidatos, mas em legendas gerenciadas por pessoas que, após as eleições, querem negociar cargos, buscar benefícios pessoais e favorecer somente a quem interessa: eles mesmos. Política é meio complicado de entender, mas torna-se fácil quando entramos no âmbito municipal. Em cidade pequena, todo mundo conhece todo mundo e é fácil descobrir quem monta e quem toma parte em uma ou outra legenda para ajudar a população ou receber benefícios pessoais. É simples reconhecer quem gera ruído em torno de si mesmo para parecer boa gente e quem está realmente preocupado com o bem-estar da população. Já que o voto é secreto, que tal votarmos em pessoas realmente competentes desta vez?

Neste ano tem eleições. Lembre-se: é o sujeito competente e sério que irá mudar as nossas vidas. Os caras das "cortesias" serão aqueles que nos deixarão estressados por não termos o básico até as olimpíadas de 2020. A proposta é esta. Que possamos, todos juntos, votar com absoluta consciência e eleger ou reeleger apenas pessoas sérias e comprometidas. Boa sorte para todos nós!

(Por Carlos Romero Carneiro, que não é candidato a nada, não apoia ninguém, mas que sonha com uma cidade mais bacana para se viver)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Os feitos de Décio Saretti: um honorário cidadão santa-ritense

“Desta vez, vocês vão tocar a caminho do céu.” - foram as palavras do Padre Coutinho. A passarela de Aparecida estava lotada naquele 12 de outubro e o carro de polícia foi à frente, lentamente, abrindo alas entre os fiéis. Logo atrás, o Bispo dava a bênção, seguido pela Lira Santa Rita, “menina dos olhos” dos Padres Coutinho e Orlando Gambi e que, por todo o caminho, entoava hinos e encantava os presentes, até chegar ao altar. O ano de 1990 ficou marcado no coração dos integrantes da lendária corporação musical de Santa Rita do Sapucaí. O mesmo aconteceu nos três anos seguintes, quando estendeu-se o convite para que se apresentassem em Aparecida, no dia da Padroeira do Brasil. Foi com muita emoção e lágrimas que nosso homenageado se lembrou, como se o fato tivesse acontecido ontem. Durante o nosso papo, Décio Soares Saretti relatou estes e tantos outros acontecimentos de uma vida que se confunde, a todo momento, com a história da música e da cultura em nossa cidade.
“Uma doçura de pessoa.” - cabe-lhe, perfeitamente, o mesmo adjetivo com que se referiu a diversas personalidades que passaram por sua vida, como a D. Terezinha Capistrano e o menino Wilson (músico e aluno, cuja morte prematura ainda o emociona). Por trás da aparência imponente e da vida agitada que leva, constantemente envolvido em diversas atividades, há um homem amoroso, com alma de músico, capaz de se encantar com as pequenas belezas da vida.

Décio, 60 anos, é natural de Jacutinga. Veio para Santa Rita, ainda criança, com os pais e os irmãos. Apesar de ter morado em outras cidades, não tem nenhuma pretensão de sair daqui. “Eu rodo, rodo e acabo em Santa Rita. É aqui que eu vou ficar.”

Décio ficou e tem contribuído muito, ao longo dos anos, nos segmentos cultural e social do município, juntamente com outros nomes que nos são tão familiares. Atuando, há 15 anos, como presidente da Lira Santa Rita, entrou na banda muito antes, a convite de Odair. Desde então, usou os mesmos pratos que pertenceram ao Seu Lupércio, ao lado do saudoso Kenit, nomes que recorda com carinho, já que acrescentaram boas lembranças à sua vida.
Formado em Educação Física, Décio já foi diretor do Sanico Telles e, atualmente, é professor na escola, há mais de trinta anos. É lá, também, que ele cuida da tradicional fanfarra. Solteiro convicto, educou e auxiliou na criação de Juarez Monteiro, hoje com 37 anos,  e orgulhosamente comenta sobre suas proezas e superações. Depois que apadrinhou o menino, há 24 anos, sentiu a necessidade de fazer algo a mais por crianças e adolescentes, com quem sempre gostou de trabalhar. Foi assim que tornou-se Comissário de Menores, cargo que exerce de maneira voluntária, mas que exige inúmeros requisitos e avaliações. 

Em 2013, Décio foi homenageado pelo Fórum pelos serviços prestados ao Poder Público, juntamente com o Juiz de Direito, José Henrique Mallmann. Já em 2014, foi agraciado pela Câmara com o título de Cidadão Honorário Santa-ritense, reconhecimento que define a seriedade do trabalho que exerce na promoção de nossa cultura e que dá respaldo ao carinho dos santa-ritenses por esta grande figura. Ao querido Décio, nossa estima e consideração.

(Por Danlary Tomazini)

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sábado, 19 de dezembro de 2015

Santa-ritense esteve em Mariana e conta o que viu (Por Kátia Gomes)

Aquele foi um dia muito triste, e estar ali de pé diante daquele estrago, mexeu comigo de um jeito que não sei explicar. Eu chorei e pedi perdão! Para quem? Perdão a Deus, ao planeta e a toda energia que me cerca e que parecia estar de luto naquele silêncio mórbido, cheio de destruição e morte.
Não tenho orgulho das imagens que fiz em Bento Rodrigues - Distrito de Mariana, em MG. Fui até lá sem saber o que encontraria e na intenção de registrar em imagens o ocorrido, mas o que ficou ali depois da lama é tão feio que hoje não tenho orgulho nem de ser quem sou… Não é possível ter a dimensão sem estar, sem sentir a tristeza até no canto dos pássaros que insistiram em ficar nas árvores ao redor. 

Chegamos a Mariana na terça feira, 17 de Novembro, por volta das 12 horas. Fomos recebidos pelo Tavo amigo do Caio Amado (EntãoToma Produções) que foi comigo para registrar em vídeo a tragédia. Logo na entrada de Mariana já notamos uma grande movimentação de carros, muitos caminhões com doações e muitas pessoas andando de um lado para outro. Nossa primeira parada foi o local onde estão recebendo as doações. Deixamos o que foi enviado pelas pessoas de Santa Rita e, enquanto estivemos lá, doações não pararam de chegar em carros com placas de diversos lugares. Um galpão gigante, lotado de tudo que se possa imaginar e muitos voluntários ajudando na organização. 

Saímos de lá com instruções de como chegar e fomos em direção a Bento Rodrigues onde não se nota visualmente qualquer problema até uma determinada curva, onde, de repente, se abre uma cratera que os olhos não alcançam o final do estrago e continuar de carro se torna impossível. Largamos o carro ali, atravessamos um trecho onde parecia seguro e onde percebe-se, passava uma ponte e um rio que se funde com a lama. Para nós que não conhecemos a região antes do desastre fica bem difícil saber o tamanho do rio que antes passava por esse trecho. Seguimos uns 30 minutos caminhando de galochas, por uma estrada lateral à margem dessa cratera de lama onde parece que um meteoro caiu. Chovia, e nós seguimos por essa estrada querendo ver Bento Rodrigues que havia sido diretamente afetada e, mais uma vez, depois de uma curva, se leva um susto. Uma cratera ainda maior, mas agora com casas e carros no meio dela e um caminho de lama e destruição que não acaba até onde a vista alcança. De onde ficamos fotografando e filmando é possível ouvir o barulho de máquinas trabalhando vindo de algum lugar. Pensamos em tentar chegar ao vilarejo, mas encontramos dois rapazes que nos alertaram do perigo em tentar cruzar a lama. Esses mesmos rapazes nos contaram que o aviso que salvou as pessoas de uma tragédia humana ainda maior veio de uma mulher que trabalhava na Vale e que chegou de moto até o Vilarejo. Foi ela que deu o alarme para que as pessoas abandonassem tudo e fugissem, porque a barragem havia rompido. Segundo eles, a lama tomou conta de tudo e de maneira muito rápida, mais ou menos uns 40 minutos depois do aviso. 

O que ficou para mim depois de ver aquele local destruído é muita vergonha de fazer parte de uma raça que explora, em nome da própria sobrevivência e luxúria. Uma raça que vem acabando com todos os recursos deste planeta lindo e incrível que não precisa de nenhum de nós para absolutamente nada.

Não tenho aqui intenção de defender ou julgar quem quer que seja. Na minha dispensável opinião, essa tragédia é tão culpa da Vale, Governo e Samarco quanto de todos nós em nossa vida moderna que precisa de cada vez mais recursos naturais para manter um estilo de vida que vai acabar por destruir o planeta, e isso certamente me inclui.  Eu nunca nem pensei em cobrar que fiscalizações fossem feitas e, até ontem, nunca tinha parado para pensar que um mísero alarme nos vilarejos próximos a essas barragens poderia salvar a vida das pessoas no caso de um acidente. Eu também adoro carros americanos com seus mega motores e tração 4x4 que precisam de 1 litro de gasolina para percorrer 5 míseros kms; eu também tenho smartphone; uso internet; consumo produtos servidos em latas e garrafas pet. Fazemos todos parte desse cotidiano industrializado que precisa dos recursos que dali e de tantos outros lugares do mundo são retirados de maneira vil e indiscriminada. Se por um lado é, sim, muito bonito ver todas aquelas doações para os atingidos, e todo o esforço das pessoas em todos os cantos do nosso país e do mundo para minimizar o sofrimento daquelas famílias, também é muito triste perceber que não conseguimos, enquanto humanidade, existir sem matar nosso maior bem e coexistir com a natureza. 

Oferecimento:

domingo, 13 de dezembro de 2015

Sadiah Rafiz, uma muçulmana em Santa Rita

Conte-nos um pouquinho sobre a senhora?

Moro em Santa Rita há 6 anos. Sou brasileira, casada com um egípcio que conheci em uma Mesquita. Meu marido é um empresário no Cairo. Sua empresa é do ramo de produtos descartáveis, preservativos e produção de materiais plásticos que são exportados para todo o Oriente Médio. Além de empreendedor ele também é arqueólogo.

Como foi sua vinda para Santa Rita?

Minha irmã, moradora de Santa Rita, não estava em condições financeiras boas e eu vim para ajudá-la. Depois disso, minha mãe teve um AVC e acabei ficando para cuidar dela. Atualmente, minha irmã trabalha na prefeitura de Santa Rita do Sapucaí.

O restante da sua família também é muçulmana?

Apenas eu sou Muçulmana. Minha mãe é católica e  minha irmã é protestante. Eu frequento as Mesquitas de Taubaté e Santo Amaro .

Como conheceu o Islã?

Primeiro, eu fiz história na USP, sou historiadora. Em seguida, estudei geografia, também na USP, mestrado em Geologia Isotópica e cursei pedagogia nos anos em que dirigi uma escola em São Paulo. Quando terminei estes cursos, comecei a cursar Teologia na Universidade Braz Cubas, em Mogi das Cruzes e me apaixonei pelo islã. Desde então, tornei-me Muçulmana.

O que diz a sua crença?

Acreditamos em Alá como o único Deus. Minha religião prega apenas amor, misericórdia, verdade e paz... tão somente isso. Segundo minha crença, temos que ser misericordiosos para com todos. Minha religião não prega violência ou guerras, muito pelo contrário. O Islã diz que “Maldito é aquele que derrama o sangue.”

Qual é a direção de Meca em Santa Rita?

Se pegarmos como referência a Prefeitura, diria que a direção de Meca seja a estátua de Santa Rita, na entrada da cidade. É para lá que eu me dirijo durante as cinco orações que eu faço por dia.

O que vocês pensam sobre os atentados como o acontecido em Paris?

O que está acontecendo em Paris e no mundo Oriental tem sido feito por pessoas doentes. Eles não são verdadeiramente muçulmanos e não seguem os ensinamentos do Islã. Na minha opinião, eles foram criados pelos Estados Unidos que têm uma gana muito grande de dominar o mundo e controlar o petróleo. 

A senhora já foi hostilizada por aqui?

As pessoas que me chamam de “mulher bomba”, “esposa de Bin Laden” e outros adjetivos são infelizes porque desconhecem a minha religião, não buscam conhecimento ou porque querem mostrar aos outros que são capazes de me ridicularizar.
Mas é tratada bem, de maneira geral?

As pessoas me abraçam, me chamam de princesa e me tratam muito bem aqui em Santa Rita. Aqui, sou conhecida como “A Muçulmana” e todos os comerciantes gostam muito de mim. Acontece que, em alguns casos, sofro certo tipo de hostilidade que, vez ou outra, me contraria. As minhas caminhadas, por exemplo, tive que parar porque, na minha rua, havia um rapaz que me hostilizava. Na semana passada, um jovem passou de moto e gritou “Ela é islâmica! Cuidado com a bomba!”. Não são todas as pessoas. São apenas alguns jovens que não sabem o que é ser uma mulher Muçulmana.

Poderia contar algum caso de ofensa?

Há alguns dias, fui comprar algo em um comércio e um homem disse, talvez por inocência, pra eu deixar a bomba antes de entrar no local. Já no supermercado, aconteceu uma coisa horrível. Um funcionário ficava me seguindo. Como eu ligo o tempo todo para casa para saber como está minha mãe, quando eu fui guardar o celular, fui abordada por ele. O rapaz me pediu para que abrisse a bolsa que queria examinar. Naquele momento, eu procurei o gerente, contei a história a ele e pedi que chamasse a polícia para que pudesse mostrar o que tinha na bolsa e, posteriormente, tomar minhas providências. O gerente, que já me conhecia de longa data, ficou horrorizado com o acontecido e me pediu muitas desculpas. Eu gosto muito deste supermercado e dos funcionários... creio que aquele foi um caso isolado. 

Gostaria de deixar claro que não sou hostilizada pelo povo de Santa Rita. Pelo contrário, sou muito bem tratada. O que acontecem são casos isolados, com pessoas mal esclarecidas. Algumas pessoas me chamam de irmã, imaginando que eu seja um freira e eu conto que sou muçulmana. Isso não me incomoda, já que o Islã nos ensina a tratar com respeito todas as religiões. 

Poderia nos contar sua visão sobre a cidade?

Eu lamento que esta cidade tão acolhedora e tão boa tenha dois aspectos que considero negativos. Em primeiro lugar, é a desarborização. Enquanto, no Cairo, você tem temperatura de mais de cinquenta graus e a sensação térmica não é tão grande por conta da brisa gerada pelas árvores, em Santa Rita, temperaturas muito menores fazem as pessoas sentirem um calor muito grande. Em segundo lugar, vejo como a falta de opções para os jovens. Porque os jovens não são apenas aqueles que têm dinheiro para se divertir em Pouso Alegre. Muitos ficam por aqui e precisam de divertimentos. Eu vi algumas vezes, nos finais de semana, os jovens menores de idade tomando vinho no gargalo e achei um absurdo aquilo. Nos países muçulmanos, isso não acontece e gostaria que fosse assim por aqui também.

A senhora está indo embora da cidade?

Eu vou embora no dia 15 de janeiro porque a minha casa é no Cairo. Tenho filho e marido no Egito e minha casa verdadeira não é no Brasil. Eu gosto das pessoas daqui, mas preciso voltar para o meu lar. 

E pretende retornar algum dia ao Brasil?

Sem arrependimentos, eu não volto mais porque, se eu estou em São Paulo, corro o risco de ser hostilizada no reduto dos judeus. Se chego à rodoviária de lá, os jovens também me atacam. 

Embora o Brasil não tenha conhecimento disso, temos um milhão e seiscentos mil muçulmanos no país. O Islamismo é a religião que mais cresce por aqui. Para se ter uma ideia, na França há um milhão de muçulmanos. 

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Jader conta como sobreviveu a tiros, raios e experiências de outro mundo

Como era sua infância em Santa Rita?

Tivemos uma infância ótima. Era uma cidade pequena e não tínhamos os problemas de hoje. As pessoas eram mais amigas, mais próximas, a criança brincava na rua e cada região da cidade tinha sua turma definida. Então você tinha a turma do morro do José da Silva, a turma da Rua da Pedra ou a nossa turminha no centro da cidade. Nossa vida se resumia em estudar, ficar com a família ou nos divertirmos no Country Clube. 

É verdade que você já levou um tiro?

Quando eu tinha uns 18 anos, já gostava muito de armas de fogo e tal. Num domingo, que era dia de jogo do Brasil, nós fomos ao sítio do pai do Mário Dimas, atrás do Inatel, para praticar tiro ao alvo. Por acidente, a arma, que era de calibre 22, disparou e eu acertei um tiro em mim mesmo! Foi uma coisa grave, porque tiro de 22 é igualzinho bala de garrucha: aquilo atinge vários órgãos e compromete tudo. Eu cheguei ao hospital quase em coma, com hemorragia interna e tive que ser internado em emergência. Para minha sorte, naquela época, o hospital daqui tinha um ótimo centro cirúrgico e o doutor Kallás, que até cirurgia cardíaca fazia na cidade, estava em Santa Rita com vários outros médicos e puderam salvar a minha vida. 

A bala atingiu a pleura, pulmão, fígado, intestino e o baço. Portanto, se, algum dia, você ouvir dizer que o meu fígado não é bom por conta do meu estilo de vida boêmio cometerá uma grande injustiça, porque é por conta desse tiro de 22!

Também foi atingido por um raio?

Nesse episódio, fui com o Mário Dimas a uma fazenda do Bom Retiro e, na volta, quando descemos a serra debaixo de chuva, coloquei a mão numa porteira de arame farpado e caiu um raio. Eu acordei, algum tempo depois, a uns 2 metros de onde eu estava, de costas no chão, sem me lembrar de nada! Foi o Mário quem contou que eu tinha acabado de levar uma descarga de raio.

Você já foi declarado morto por alguns minutos?

Eu sempre ouvia dizer que a pessoa que tem experiência de quase morte, sempre se deparava com uma luz branca, túnel colorido e não sei o que mais. Muitos diziam caminhar por um ambiente iluminado, conversar com amigos que já morreram e aquilo me deixava curioso. Na experiência que eu tive, não aconteceu nada disso. Quando eu tomei uma anestesia geral por conta de uma operação que eu fiz, tive parada cardiorespiratória que me deixou oficialmente morto por alguns minutos, mas eu não vi túnel branco nenhum!

Entre tiro, raio e câncer, acabei me recuperando de todos e estou aqui levando a vida. A conclusão que eu tirei é que, ou alguém lá em cima gosta muito de mim, ou me detesta porque não quer me ver lá de jeito nenhum!

Conte-nos sobre o Bloco Xavascos

Era Pirokos! Lembro que na época do bloco nós saímos pedindo um dinheirinho na cidade pra gente engraxar a garganta. Uma das pessoas que nós encontramos foi o Padre José.  Nós pedimos para ele assinar o livro de ouro, mesmo se não fosse realizar a doação para dar importância aos contribuintes do bloco. Ele disse que iria participar, mas queria saber o que significa o nome. Na hora, alguma pessoa inventou que era uma junção das palavras “pirados” e “loucos”, mas sabíamos que não era bem isso... 

Naquele ano, nós resolvemos fazer uma paródia do Sidney Magal e arrumamos um Aero Willys sem capota. O Márcio, filho do professor Francisco, vestiu de Magal e ficava dublando, o Iroman era motorista, eu fui de segurança e o resto da turma ia bêbada, em volta do carro, fazendo anarquia. 

Mais tarde, nós tivemos outro bloquinho chamado Sanatório Geral. A camiseta daquele ano foi uma ilustração do Sarney, atrás das grades, com a inscrição “Cinco anos para Sarney”.
Você frequentou a  Temporada Lírica?

Tomei conhecimento da Temporada Lírica quando frequentava a pracinha da Tia Elza onde tomávamos cerveja, tocávamos violão e jogávamos conversa fora. Naquela época, o Cyrinho com os seus amigos, também iam lá e, com o passar do tempo, acabamos nos tornando amigos. Um dia, eu tive a honra de ser convidado para a famosa Temporada Lírica e tomei parte na segunda geração do evento. A primeira era formada pelo Paulo Jacaré, Ditinho Valim, Pipico, Teco, Pingo, Paulo Renato, Toninho de Franco, Marcos Baracat, Rubens Carvalho e outros. 

Quem criou o nome foi o Ditinho Valim, e aquele título acabou gerando especulações sobre o que era feito no local. Muitos achavam que íamos lá para escutar ópera ou declamar poesias, mas não era nada disso. O Cyro tinha uma discoteca muito grande e toda a vida foi um grande apreciador de música. Então as pessoas iam lá para ouvir um som, tomar uma cerveja e bater papo. O evento acontecia sempre na época de frio, quando o seu pai, o Doutor Cyro, ia com a esposa passar uma temporada no Rio de Janeiro por conta da asma. Se ele ficasse dois ou três meses fora, a turma invadia a casa e só saía quando ele voltava. 

Essa turma também frequentava outros bares?

Antes do Bar da Tia Elza, essa mesma turma frequentava o Bar do Zé Roberto, que chamávamos de “Bunda de Fora”, ali na rua da ponte. O nome verdadeiro do estabelecimento era “Pastelaria Indyana”.

Tem algum causo sobre seus anos de defensoria?

O Fórum é um ambiente formal, mas de vez em quando acontecem alguns casos muito engraçados. Talvez eu seja um dos decanos da Defensoria Pública mineira e, nesses 30 anos de carreira, já vi muita coisa acontecer.

No começo da minha carreira, uma mulher de meia-idade me procurou para uma consulta sobre desquite. Ela sempre foi dona de casa e o marido era um pequeno proprietário rural que vivia do que plantava. Como ela não sabia lidar com terra, veio perguntar se tinha direito à pensão. Quando eu contei que ela tinha todo o direito, ela me falou: “Eu sabia! O meu marido não quer me dar, mas eu até já escolhi! Tem uma pensão pra vender aqui na rua de ponte que é do jeitinho que eu quero!”

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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Empório de Notícias - Edição 95 - Nas bancas!

Nesta Edição:
- Jader conta como sobreviveu a tiros, raios e experiências de outro mundo.
- Sadiah Rafiz, uma muçulmana em Santa Rita
- Santa-ritense esteve em Mariana e conta o que viu (Por Kátia Gomes)
- Livro conta a história da Fundação de Santa Rita (Por Ivon Luiz Pinto)
- Acessibilidade (Por Danlary Tomazini)
- Antes e depois de Mariana (Por Rita Seda)
-Inatel é bicampeão do Prêmio Santander Universidades 
- Inatel recebe inscrições para programa de Pós-Graduação
- Inatel firma convênio com Sindvel e empresas para apoiar a qualificação de mão de obra na região
- Musical Hair fará nova temporada em Santa Rita do Sapucaí
- IX Semana Literária do Colégio Tecnológico Delfim Moreira
- É nóis na correria... (Por Tainá Desidério)
Quem vence? (Por Marcelo de Souza)
- Manifesto pela saúde da população (Por Fernando Barbosa Mota)

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Opinião: Ouvi de tudo naquele sábado, só faltou uma solução (Por Carlos Romero Carneiro)

Doença não escolhe a vítima. Atinge ricos, pobres, patrões e operários. O que faz com que uma pessoa seja salva ou que se lasque em uma mesa de cirurgia é uma nota verdinha chamada grana que muita gente não tem. Diante desta realidade irreversível, não adianta fazer política ou incitar luta de classes. Se existe a necessidade de resolver o problema, é preciso ser estratégico e promover a sinergia entre ambas as partes. Esta é a principal característica de um bom administrador: conciliar pontos de vista distintos.
Na última semana, soubemos que a diretoria do hospital, incapaz de gerir a instituição com os recursos de que dispõe, solicitou apoio maior da prefeitura no sentido de cobrir suas despesas, uma vez que o HAMC tem tido um déficit de 150 mil Reais por mês. Através de pronunciamentos de ambas as partes, fomos informados que o contrato firmado com a prefeitura tem sido pago em dia, mas que seu valor está defasado e tem sido insuficiente para arcar com as despesas, necessitando de uma revisão imediata.

Em discurso oficial, o prefeito disse que disponibilizou um carro e que ofereceu lote, um montante em dinheiro e que distribuiu cestas de natal para os funcionários da instituição, além de outros benefícios. Acontece que, em uma entidade onde voluntários (muito competentes diga-se de passagem) lutam para cobrir um rombo que beira 2 milhões de Reais, justamente por atender a todas as pessoas sem distinção, um apoio paliativo não é suficiente. É preciso que haja o empenho de todos para resolver esta crise e, como disseram os diretores da entidade, há a necessidade urgente de aumentar os investimentos para que o hospital não feche as portas. Não se trata de futilidade e nem de fazer com que a entidade gere lucro. O que foi levantado em um documento veiculado na internet pela Fundação é a urgência de se cobrir as despesas e sanear as dívidas.

Vale ressaltar que hospital é bem diferente de posto de saúde. Uma coisa não anula a outra e é preciso investir em ambas para que as pessoas tenham tratamento digno. Investir em postos de saúde é essencial. A vinda do SAMU também. Acontece que investir em postos e não investir o suficiente no hospital é restringir à população o acesso a um local para realizar seus exames, tirar uma simples chapa de raio-x, dar à luz a um filho ou submeter-se a tratamentos mais delicados. 

Esta talvez seja a primeira vez que o Jeffinho assume a prefeitura após o surgimento das redes sociais. Sinto que tem se sentido incomodado com as críticas e, quando o vi se pronunciar de forma tão emocional no rádio, suspeitei de que a situação poderia ser mais grave do que imaginava. Como não temos alternativa senão contar com o HAMC, deveria haver um entendimento no sentido de se chegar a um denominador comum para resolver o problema, de uma vez por todas. Ao contrário disso, ouvi frases que não correspondem às de um líder experiente. Afirmações como a de que o presidente da Fundação "deve ser homem e assumir a responsabilidade de que quebrou o hospital" ou que "quem perdeu a maternidade foi o pobre, porque o rico continua usando". Nisso eu pergunto: cadê a racionalidade e a intenção de colocar os interesses da população acima de tudo? Cadê a sinalização de que algo de concreto e definitivo será feito daqui pra frente para resolver esta crise que não é de hoje e que nem foi o atual presidente da entidade quem produziu? Será que os voluntários que assumiram a entidade com empenho e que têm sido tão bem-sucedidos em suas vidas particulares, não deram o máximo pelo bem do Hospital? Será que teremos que fazer rifas pelo resto da vida porque os recursos não são suficientes para atender à demanda da população? Ouvi palavras duras naquele sábado, só não ouvi uma solução.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Foco na panela! (Por Ana Lúcia Cândido)

Nasci em Santa Rita do Sapucaí, Minas Gerais, em 03 de Maio de 1960. Aprendi a ter o gosto pela culinária com minha avó materna, Maria José e minha mãe, Teresa Maria, que cozinhavam no fogão a lenha em Minas, onde nasci e passei minha infância. Tudo era plantado no quintal e os porcos e galinhas criados em um cercado. Tínhamos muita fartura em legumes, verduras e frutas de época. Os doces eram feitos em tacho de cobre e no fogão a lenha. As paçocas piladas no pilão de madeira, o café colhido, torrado e moído em casa e depois passado no coador de pano em um enorme suporte de ferro. As panelas e chaleiras eram de ferro preto, os pratos, canecas e bule de ágata. Quando matava o porco, tudo era aproveitado: fazia chouriço, pendurava a panceta ou barriga em arame em cima do fogão a lenha para defumar e ai tínhamos o bacon defumado e as carnes eram guardadas em latas na própria banha, pois não havia geladeira em casa. Quantas saudades…
Os queijos, manteigas, requeijão de corte, doce de leite, bolo de fubá, arroz doce, canjica e outros doces em calda eram feitos com muito esmero por elas e eu ali sempre em volta para raspar as panelas. Nos finais de semana, saía com uma forma cheia de doce de leite para vender no campo de futebol dos colonos, no sítio.

Lembro-me até de minha mãe lavar as roupas no rio com sabão de cinzas que minha vó fazia enquanto eu me divertia brincando nas águas do rio!

Quando meus pais resolveram mudar para Jundiaí, foi então que eu realmente tive que cozinhar, pois minha mãe foi trabalhar fora e eu tinha muitos irmãos menores que eu. Aprendi a fazer feijoada e ajudei a nossa vizinha a fazê-la na casa do Sr. Walmor, um dos prefeitos de Jundiaí. Depois, com 10 anos fui trabalhar de doméstica em uma casa onde eu cozinhava. Com 12 anos, trabalhei na casa da minha professora, onde eu fazia tudo, desde o café da manhã até o jantar e, nessa época, comecei a fazer cursos no Sesi e também estudava no Conde do Parnaíba, à noite e, desde então, minha paixão pela cozinha nunca mais parou.

Com os tropeços da vida e a necessidade sempre em primeiro lugar, não tive oportunidade de fazer uma faculdade, pois me casei muito cedo e fui mãe muito precoce. Mas sempre tive muito apoio de familiares e amigos e tive a oportunidade de ter minha própria confeitaria, no ano de 96. Como a sociedade não deu certo,  em 98 encerramos as atividades. Voltei a trabalhar em empresas, mas sempre fazendo meus doces e bolos nos finais de semana e assim vencendo, aos poucos, os obstáculos. Depois tive uma lanchonete onde servia muitas porções e caldos e com musica ao vivo todas as sextas, mas também tive que me afastar, pois, nessa época, meu filho adoeceu. Voltei novamente ao trabalho em empresa onde atuei por 2 anos no Villa Pizza Bar. Depois passei 4 anos na Itália, onde conheci a culinária Italiana e me apaixonei muito mais pela Gastronomia. Retornei ao Brasil, em 2012, e decidi fazer a tão sonhada faculdade de Gastronomia, onde esse ano me formo como gastrônoma.

Fonte: foconapanela.com.br

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