terça-feira, 18 de março de 2014

Prof. Fernando Costanti e o iluminismo em Santa Rita do Sapucaí - Por Salatiel Correia

A memória nos conduz à leveza no momento em que nos recordamos de pessoas que cruzaram nossos caminhos neste fluxo contínuo da vida. Machado de Assis costumava referir, em seus escritos, que um dos momentos enriquecedores de nossa existência se revela quando conseguimos atar as duas pontas da vida. Confesso que estou num desses momentos nos quais o passado e o presente modelam o futuro que nos resta.
Dias atrás, estava lembrando-me de um querido mestre dos bons tempos do Inatel. Trata-se do professor, de saudosa memória, Fernando Costanti. Relatemos um pouco sobre ele. Aluno da primeira turma da Escola Técnica de Eletrônica (ETE), formou-se engenheiro em Belo Horizonte. De volta ao sul de Minas, pois é natural de Santa Rita, tornou-se Costanti, professor da antiga Escola Federal de Engenharia de Itajubá e do Inatel. Creio que vivia em Itajubá. Foi, nessa época, que o conheci, lá pelo final dos anos 1970. Lembro-me, até hoje, do velho clássico do Halliday Resnick adotado pelo professor Costanti para seus alunos, estes, neófitos como eu, em suas aulas de física.

Bom de papo e extremamente cortês com todos, exalava o velho mestre uma tranquilidade que lhe era peculiar. Gostava, como dizemos aqui, em Goiás, de dois dedos de prosa. Num desses causos, relembrava o professor Fernando de seus tempos de estudante na Universidade Federal de Minas Gerais. 

Vem-me à memória algo que ele me disse em uma das muitas conversas que costumávamos ter. “Fui colega de República do Ziraldo”, disse.

A vida dá voltas e, numa dessas voltas, acabei encontrando o Ziraldo num momento em que veio a Goiânia, cidade em que resido, a convite do Governo Estadual. Fui apresentado a ele na sede do governo goiano, o Palácio das Esmeraldas.

No transcorrer da conversa, revelei ao simpático Ziraldo: - Estudei lá no Inatel e tive como professor um grande amigo seu, Fernando Costanti. Ao proferir tais palavras, percebi, nos olhos do autor de O Menino Maluquinho, uma emoção que me fez mais próximo dele, como se eu fosse um conhecido seu de longa data.

- Grande, Costanti, foi meu fraterno amigo dos tempos em que éramos uns duros lá em BH. E acrescentou: No meu tempo de BH, tinha muita gente de Santa Rita que lá estudava. O Eli Kállas é outro amigo meu, disse Ziraldo. E acrescentou mais ainda: 

- Aliás, tinha muita gente que vinha para a capital com uma bolsa de estudos concedida por uma verdadeira iluminista que incentivou o desenvolvimento de sua terra: Sinhá Moreira. 

Fiquei com uma excelente impressão do Ziraldo: pessoa simpática, leve e pareceu-me muito de bem com a vida.

Sim, Ziraldo fez uma feliz observação nos seus dois dedos de prosa: o Iluminismo, poder da razão que sobrepujou o absolutismo dos reis, difundido universalmente com a vitória da Revolução Francesa, influenciou a cabeça da elite santa-ritense. A começar pelo ex-presidente Delfim Moreira e suas preocupações com a educação como instrumento de desenvolvimento de um povo.

Dona Sinhá Moreira veio dessa ambiência. Ambiência que se transformou em ação. A fundação da Escola Técnica de Eletrônica (ETE) e as bolsas de estudo concedidas a alunos carentes evidenciam as preocupações da sobrinha de Delfim Moreira no sentido de incentivar a propagação da racionalidade em sua terra natal. Anos depois, veio o Inatel, plenamente apoiado pela sociedade local.  ETE, INATEL e FAI são as faces mais visíveis do Iluminismo plantado em Santa Rita do Sapucaí pela sua elite de líderes esclarecidos.

Sem ações dessa natureza, a pequena Santa Rita seria mais um dos muitos municípios do país relegados ao agrarismo de suas terras. Veja-se a extraordinária transformação estrutural que teve sua economia nos últimos 30 anos. O PIB industrial sobrepujou o agropecuário. E isso traz dinamicidade, riqueza e perspectiva de futuro para uma região.

O ambiente iluminista em Santa Rita gerou personalidades respeitadas no país pela sua erudição. Os ministros Bilac Pinto e Francisco Rezek são dois exemplos dos frutos produzidos pela cultura iluminista santa-ritense. Fernando Costanti é outro belo exemplo do modo de ser iluminista da pequena Santa Rita. Atando minha vida do final dos anos 1970 até agora, não posso deixar de expressar, nestas linhas, referências à memória do velho mestre que tanta generosidade deixou entre nós.

(Salatiel Soares Correia é Engenheiro, Bacharel em Administração de Empresas e Mestre em Planejamento. É autor, entre outras obras, do livro Tarifas e a Demanda de Energia Elétrica)

Um comentário:

  1. Olá Salatiel. Também estudei no Inatel e o Professor de Física 4, Fernando José Costanti foi sem dúvida um Grande Mestre. Acredito que o Melhor que conheci.
    Retribuo seu texto com uma Poesia da autoria do Prof. Costanti:
    CHRONOS
    Fernando José Costanti

    O tempo
    é um mau ceifador.
    Ceifou
    as flores que prometiam
    bons frutos.
    Ceifou
    os grãos maduros.
    Ceifou
    as folhas.
    Ceifou
    o joio e o trigo.
    Ceifou
    o prazer e a dor,
    o ódio e o amor.
    Ceifou
    a ilusão, a verdade
    e partiu.
    O homem
    se escapou dele,
    tenta recolher
    aqui e ali,
    um sorriso,
    um riso,
    uma lágrima,
    um gesto,
    uma flor,
    coisa belas ou úteis
    que o ceifador
    deixou
    abandonadas e esquecidas
    pelo mundo.

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