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terça-feira, 7 de julho de 2015

Santa Rita é um mosaico (Por Rita Seda)

O mosaico é uma arte antiga. O interior da Basílica de São Pedro, em Roma, é todo revestido de mosaicos. É fantástico, lindíssimo! A nossa vida também é feita de mosaicos. O artista sou eu, é você. Nossas mãos é que trabalham cada caquinho de vidro quebrado ou de material nobre, para construir a obra de arte da nossa vida. Depende de cada um... Da personalidade, do  modo de encarar a alegria e a adversidade, os ganhos e as perdas... Do  modo de reagir a cada ocorrência que nos acontece. Do modo de sentir, de dar e receber amor, enfim, de viver. E de querer. Por isso não há dois seres humanos iguais. Levando mais a fundo esta reflexão concluo que o mesmo se dá às cidades. Todas têm algo em comum, casas e igrejas, bares e restaurantes, mercados, ruas e praças, escolas, parques e jardins. Mas cada cidade tem sua peculiaridade que nenhuma outra repete. Santa Rita nasceu sob os auspícios da santa dos casos impossíveis. De outro modo, como explicar  que uma senhora, nascida em berço de ouro, iria trocar a vida que levava, num mundo que tantos perseguem, para lutar por ideais que só o seu coração magnânimo sonhava? Ela foi uma líder e soube atrair mais idealistas para sonhar junto com ela.  
Naquele tempo (na década de 1950), nossos colégios ofereciam apenas os cursos Ginasial, Científico e Formação de professores de primeiro grau. Os poucos que saíram para fazer cursos superiores, seria porque os pais podiam arcar com as despesas ou... porque eram sustentados por essa ilustre dama visionária. Quem tinha casa, muito bem, mas quem não tinha, passava a vida no aluguel. Como num passe de mágica, Dona Sinhá atacou os dois problemas: construiu o bairro Vista Alegre, cujas casas  foram  pagas em prestações irrisórias e fundou a Escola Técnica de Eletrônica. Antes, ela dava o peixe para alguns; agora, ensinava a pescar. E desse gesto sem precedentes, como de uma árvore plantada à beira do rio, outras escolas foram brotando e acolhendo jovens professores e jovens estudantes. A gente brincava que Dona Sinhá estava com pena das mocinhas casadoiras da cidade que, sem chance de encontrar marido, acabariam tias para o resto da vida... Não foram só os noivos que apareceram. Santa Rita, sem abandonar sua vocação agropecuária, (tenho orgulho da nossa Cooperativa), tornou-se um polo industrial gigante. Só não trabalha quem não quer. E muitos dos que montaram suas indústrias seguem o ideal dessa mulher que tudo sonhou, tudo repartiu, tudo doou, num espírito de puro interesse pelo bem estar do outro. E eu me ponho a refletir: se não houvesse seu  sonho e sua obra, como estaria nossa cidade hoje? Devemos valorizar e homenagear essa filha da terra, que poderia viver sem problemas, sem lutas e apreensões,  mas quis  ajudar o ser humano com desprendimento, nada esperando de retorno. Nas dobras da minha memória eu vejo uma senhora de saia e blusa, empunhando uma sombrinha e tendo como único adorno, um alfinete com o símbolo da ETE. Por mim, Santa Rita é um aglomerado de mosaicos formando a paisagem urbana, que não seria o que é, sem  a visão fundamentada no amor cristão  de uma ilustre dama, saudosa, porque  passou a vida fazendo um bem extraordinário, que teve começo mas não terá fim. Santa Rita do Sapucaí viu o começo e  o mundo está usufruindo a continuidade. Não posso amar só um logradouro da minha terra. Eu a amo em sua totalidade e, quando viajo e vou chegando na serrinha, sinto o coração pulsar mais forte.

Oferecimento: Zomng Comunicação

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Carnaval de ontem (Por Rita Seda)

Há alguns anos, estaríamos vivendo dias animados e alegres na expectativa do carnaval. Havia  ensaios de rua e  segredos  guardados a sete chaves... Dizem, por aí, que neste ano os dois blocos vão desfilar! Que ótimo!  Mas nada será como antes! Ou será? É esperar para conferir! Até as vacas da batucada sumiram! A esta altura já estaríamos cansados de dar moedinhas para esses simples, mas engraçados grupos que, todo domingo, paravam debaixo da janela da gente fazendo a sua coreografia de espantar criancinha. Mas que era divertido, isso era! As roupas coloridas do grupo, a vaca dando chifradas e exibindo uma armação co-berta de chitão, a animação por conta, apenas da percussão (que  tinha até latas e frigideiras), não deixava ninguém em paz. A batucada era o maior barato... Será que ainda existe em algum lugar? Já os mistérios dos dois blocos rivais tomavam conta da cidade. O ponto alto da temporada (senão do ano todo) eram os preparativos. Já dizia a sabedoria popular: “O melhor da festa é esperar por ela!” Eram raras as famílias em que todos torciam pelo mesmo bloco...  E até isso era interessante, dava aquela pitadinha  em forma de rixa, que fingia passar depois do carnaval, para voltar com tudo no ano seguinte. Marido chegava em casa com ar mais feliz, a esposa, que  era do outro bloco, imaginava que ele trazia algum segredo  e tentava a todo custo que ele falasse.Mas a conspiração era séria, ninguém entregava. Chegavam a ficar sem se falar por toda a época de carnaval. A não ser para uma briguinha. Os homens trabalhavam nos carros alegóricos e, de suas mãos habilidosas, saíam maravilhosas esculturas e as estruturas que se moviam com arte, para maior destaque das figuras principais do bloco. Esmeravam nos efeitos da iluminação. As esposas faziam tudo para tirar do marido alguma dica, mas  eles não se traíam nem traíam o bloco do coração. Já as esposas, quanto trabalho para esconder as fantasias ricamente bordadas de pedrarias, paetês e plumas! Não só dos esposos, mas dos familiares que eram do “outro bloco” e que se achavam  no direito de fazer “visitas” bem naquelas horas em que eram confeccionadas as fantasias... Claro que as intenções não eram das melhores! Esconder ou brigar? Às vezes não dava tempo de esconder, o jeito era mentir descaradamente que perdeu a chave! Ninguém nunca mostrou... E havia broncas também!  A gente, que não era da panelinha do costurar, colar, bordar, ensaiar, era só de torcer e aplaudir, vivia na curiosidade. O que será? E ficava imaginando os reinos do Oriente, de onde vinham inspirações. Houve um ano em que os dois blocos tiveram a mesma ideia e usaram o mesmo tema. Foi um “deus nos acuda” e, até hoje, se discute quem ganhou... Pena (ou muita sorte...) que não houvesse disputa com votação. As apresentações eram aquele delírio. Carros artísticos ostentando deslumbrantes destaques e os pares no chão, ricamente vestidos em prata ou ouro. As fantasias eram mesmo deslumbrantes. Usavam e abusavam de plumas lindíssimas.  As cabeças, ricamente ornamentadas, incitavam ainda mais a admiração. Quem era apenas torcedor  ia dos lados cantando, segurando os cordões de iluminação e isolamento. Foi o melhor carnaval do interior, ninguém pode negar. O mais luxuoso, o mais criativo. Um encantamento! As fotos e filmes estão aí para comprovar. E nas noites de folia ainda ressoam “Ride Palhaço” e “Vibrem fanfarras” para aumentar a saudade de quem viu e não esquece jamais. Mesmo que voltem a desfilar não creio que será como antes. Vão ficar faltando as famosas rixas dos casais, as tentativas de descobrir o tema rival, pois a paixão está menos quente e uma verdadeira multidão de saudosos fanáticos já partiu para o andar de cima. Nós, que ainda  aqui  estamos, esperamos ansiosos a apresentação de nossos blocos Ride Palhaço e Democráticos, este, em seu octogésimo ano de fundação. O povo de Santa Rita quer bater festivas palmas, para ambos e cantar “Parabéns a você” ao  Democráticos!  

Oferecimento:

terça-feira, 15 de julho de 2014

Lembranças da Copa do Mundo

Não torço para nenhum time de futebol. Mas, Copa do mundo é diferente. O coração bate mais forte,creio que nenhum brasileiro fica indiferente! Eu tenho algumas lembranças de copas, umas boas e outras péssimas. Em 1950 vi meu irmão Dodô colecionar figurinhas e esperar uma vitória brasileira como se espera o primeiro filho. Era um apaixonado pelo futebol. E  vi meu irmão  sofrer como nunca havia visto ninguém. Comecei a entender o que era a Copa. Em 1970 foi só alegria... Nós, em nosso carrinho, e nossos filhos sentados sobre o capô (naquele tempo era permitido!)  acompanhamos a passeata e o buzinaço da vitória da nossa seleção no México. Se alguém perguntar vitória sobre quem, eu não saberia responder... Só me lembro da euforia! Espera lá! Parece que foi sobre a Itália! Veio-me à lembrança  uma torcida empolgada,de amigos,  diante da TV de nossa casa,de amigos  que não possuíam aparelhos de TV. Xingavam a Itália com os mais feios palavrões e a minha  mãe, italiana legítima, queria pôr todo mundo pra correr! Tive que ficar trancada com ela em seu quarto para evitar o pior,  até o apito final. E só depois que tudo sossegou, ela já dormindo, saí para festejar. Depois, bem, não me lembro o ano. Afinal já disse que não sou tão chegada ao futebol, mas o fato não posso me esquecer. Estava toda família reunida, tivemos que improvisar o quintal pra caber todo mundo. Nosso neto, Felipe, uma criança ainda, torcia apaixonadamente. Filho do Junior e neto do Ivon, só podia agir assim! Enrolado numa bandeira do Brasil, seria a primeira vitória do Brasil que iria comemorar. Infelizmente o fenômeno desfenomenou e a vitória foi da França Ô frustração, ô dó do Felipe! Para mim, veio à mente,  naquele momento, o Dodô e a derrota para o  Uruguai. A mesma sensação de impotência, de revolta, de raiva explodindo como um vulcão. Até hoje esse craque me é antipático pelo modo como agiu. Outra, bem melhor, foi a de 2002. Estávamos em Recife, almoçando num restaurante, todos os olhos voltados para um telão, quando Cafu levantou a taça e fez aquela declaração de amor a sua esposa. Valeu! Gostei ainda mais daquela capital. Outra vez a Copa será no Brasil. Um Brasil com um comportamento incrivelmente diferente. Muitos estádios novos ou reformados, planejamento visto pela TV e a insatisfação do povo pela situação. A corrupção existente e sempre abafada veio à tona, e a população, que sofre com falta de habitação, desemprego, transporte, atendimento hospitalar e escolas ruins porque os profissionais não são bem pagos, reagiu com manifestações justas, mas infestadas de baderneiros. A confusão causou estragos além do limite. Até a natureza  conspirou contra, com a grande seca e as inundações antes nunca vistas. A turbulência tirou-nos a paz antes, durante e parece que  vai continuar depois da festança da Copa! Brasil, país potencialmente rico, brasileiros patriotas, vendo esvair o imposto que pagam, pelos dedos das mãos de uma turma de corruptos! Mas viva a Copa! Viva o futebol com seus gastos exagerados! Vamos curtir porque a festa este ano é nossa! Faz de conta que todos estão felizes, temos pão (bolsas diversas) e circo... Bem, nem todos, ainda! Neste dia em que escrevo muitas seleções já foram eliminadas e fazem a viagem de volta. Quero que o Brasil seja hexa,  torço por ele, mesmo sentindo a falta de um reforço de Ronaldinho e Cacá  na seleção,  mas se não for campeão, ao menos tem esta vantagem: não precisará da viagem de volta! 

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Reminiscências da Praça Santa Rita (Por Rita Seda)

Os que nasceram nas últimas décadas andam reclamando das muitas mudanças em nossa cidade. Não gostam do que estão vendo. Como será que as vê quem vem de muitas décadas, sempre residiu aqui, e acompanhou as transformações pelas quais  passou? Conto alguns fatos, mas deixo bem claro que os mesmos não me abalam, pois o progresso transforma mesmo, queiramos ou não, gostemos ou não. 
Cada tempo tem o seu jeito de ser. A nossa praça era pequena, um jardim bem cuidado, com buxinhos (aquela planta que plantaram em frente da Caixa Econômica) plantados em formação, como soldados, cortados baixinho, fazendo uma divisão da calçada interna do jardim e da calçada externa. Nessa calçada interna, a moçada fazia seu footing. Os homens andavam em uma direção e as mulheres na outra. Assim se dava o flerte, que era simplesmente “um olhar mais demorado, interessado”... Quantos namoros começaram ali! Na calçada externa formavam-se grupinhos de pessoas, (muitas vezes os pais, de olho em suas meninas), e havia os que preferiam caminhar  ali. Ainda existiam as famosas e polêmicas 4 casas, com seus janelões, constantemente ocupados por olhares curiosos. No prédio do cinema, havia um serviço de alto-falante que funcionava  até o começo da exibição do filme. Além de fazer propagandas das casas comerciais, tocava músicas, assim como faz hoje o programa da Katia Kersul, mas sempre oferecidas por namorados ou interessados em começar um romance! Músicas de filmes, boleros,  foxtrot’s, tangos argentinos,  sambas e chorinhos,  faziam a delícia das mocinhas, que, naquele tempo, não tinham a afoiteza de fazer o oferecimento: uma proeza impossível para os costumes interioranos. O jardim da praça era muito bem iluminado, não tinha árvores frondosas como as de agora, provocando escurinhos, não... Após as 8 horas, o silêncio só era interrompido pelas conversas de grupos maiores.  Quase todos iam para o cinema. Barulho de carros? Se tinha uma dúzia na cidade, era o bastante... Moto? Só a do Sr. Zé da Silva, e ele, parece que  à noite, só saía de carro. Comprava-se umas balas, chicletes, cigarrinhos de chocolate ou picolé no Bar do Sr. Júlio e o footing ia se acabando. Às 9 horas, a praça se esvaziava da juventude, especialmente a feminina. Era o nosso passatempo, noite após noite. A gente só  deixava de ir se chovesse, na semana das provas ou se estava de castigo! E como ficava amuada... Nós Acompanhamos o crescer da praça, uns monumentos retirados, outros colocados, uma nova fonte (graças a Deus que se manteve a que já existia), o cinema não tem mais projeção de filmes e muito menos o serviço de alto-falante; as casas foram demolidas, apesar das reclamações em massa, a Igreja Matriz foi reformada e agora é Santuário. Para nós, mais idosos, triste mesmo foi o avanço dos costumes. Mas, quem é capaz de parar o tempo e sua mania de progresso e mudança?    

terça-feira, 13 de maio de 2014

Homenageando as mães (Por Rita Seda)

Bendigo a Mãe com M maiúsculo, que teve a honra de ser a Mãe do Salvador Jesus, mas que também sofreu as dores de Sua Paixão, vendo-O morrer numa cruz como um reles fora da lei. Santa Mãe Maria, nossa Mãe do Céu, a ti nosso louvor, nossa gratidão por desatares todos os nós da nossa vida! Quanto às mães da nossa cidade, cada qual tem uma linda história...
Já vi mãe correndo atrás de filho  com a intenção de salvá-lo, mas ele pensava que era para castigá-lo... Quem venceu? Claro, a mãe, embora o contrário fosse o mais provável. Já vi mãe abraçando, perdoar o filho que errou, não permitindo nem que pedisse perdão. Já vi mãe ficar sem comer para alimentar o filho faminto, sem nunca contar-lhe que estava anêmica porque passara fome... Já vi mãe gabar o filho, na maior inocência, sem saber que ele roubava e se drogava... Mais ou menos como a música “Meu guri”, de Chico Buarque! Também já vi mãe brigar com a professora que deu a nota baixa merecida ao menino que foi pego colando! Mas também vi mãe que levou o filho diante do professor para pedir-lhe desculpas pela arte que fez em sala... Já vi mãe que amamentou a filha toda uma noite (mãe de primeira viagem). A filha vomitava o excesso, a mãe voltava a dar-lhe o peito pensando que o choro era de fome... E a salvação foi a sabedoria da avó da criança, que se trancou com ela em seu quarto e impediu o encontro das duas por algumas horas! 

Quantas mães eu vi esconder do pai a travessura dos filhos, que, percebendo a bondade da mãe, foram melhorando o comportamento... e as notas também! Pois as mães escondiam até as notas baixas, com a promessa dos pestinhas de nunca mais acontecer! E dava certo, porque mãe é o anjo que Deus colocou na terra para proteger os filhos. Até vi mãe, carregada de filhos, adotando duas meninas que ficaram órfãs de pai e mãe. Essa eu tenho que declinar o nome: Dona Maria Bonita. Um dos gestos maternos que mais tocou minha meninice! E aquela mãe que acolhia em sua casa, todos os dias, um punhado de garotas de famílias carentes, para ensinar-lhes um trabalho manual? Bordado, tricô, crochê, pintura, fuxico... E atrás do trabalhinho, havia o alimento, sempre escasso na casa das garotas! E a história daquela mãe, que vendo o filho inteligente, mas avesso a frequentar a escola pois achou que sabia o suficiente? Empregou-o como servente de um pedreiro amigo, pagando ela própria o seu salário, pois sabia que não iria merecer grande coisa... Ele só veio a saber da tramoia da mãe quando era homem feito! Mas que a  manobra fez bem para seu ego adolescente, mostrando-lhe o caminho do trabalho com honradez, estou certa que fez! Também já vi mãe adotar uma criança deixada na porta de sua casa, mesmo sabendo que era deficiente e que lhe daria grande trabalho, tirando-lhe toda  a liberdade... São muitas as histórias de mães... Vocês também têm as suas, vividas ou apreciadas. Mas poucas pessoas foram capazes de escrever algo tão tocante como este poema, que dedico às nossas mães, às amigas que são mães e a todas as mães do mundo:

A leoa

(Raimundo Correia )

Não há quem a emoção não dobre e vença,
lendo o episódio da leoa brava,
que, sedenta e famélica bramava,
vagando pelas ruas de Florença.

Foge a população espavorida,
e na cidade deplorável e erma
topa a leoa só, quase sem vida,
uma infeliz mulher débil 
e enferma.

Em frente à fera 
no estupor do assombro,
não já por si tremia, ela, 
a mesquinha,
porém porque era mãe, 
e o peso tinha,
sempre caro pras mães, de um filho ao ombro.
(...)
Mas a leoa, como se entendesse
o amor da mãe, 
incólume deixou-a ..
É que esse amor 
até nas feras vê-se!...
E é que era mãe, talvez, 
essa leoa!

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O milagre da minha vida (Por Rita Seda)

Sempre soube que eu sou fruto de um milagre. Por intercessão de Santa Rita de Cássia, meus pais receberam a graça de ter doze filhos. Criaram todos com muito carinho. Até pensavam que ficariam com aquele bonito número,que lembra os apóstolos de Cristo. Mas, eis que mamãe fica grávida novamente e novamente a expectativa cristã de mais um membro na grande família. Oito dias antes do parto, mamãe sentiu a criança morrer em seu ventre. Sensação inexplicável para quem nunca a sentiu. A criança, que já estava em posição encaixada para nascer, flutua, sobe, parece estar em cima do coração, pedindo socorro... Naquele tempo, para a futura mãe, o único recurso era rezar e esperar! Não sabe o que a espera, confia sua vida a Deus. Passei por isso na minha terceira gravidez. Sei exatamente como é. Mamãe tinha filho de dois em dois anos. Estava perto dos cinquenta... Após passar por esse sofrimento voltou à vida normal, talvez pensando que sua função de gerar filhos tivesse encerrada ali. Entretanto, uma décima quarta gravidez aconteceu e repetiu-se na íntegra aquele sofrimento. Mulher forte e corajosa, voltou novamente à sua rotina até que percebeu outra vida pulsando em seu ventre... Que terá ela pensado? Qual teria sido sua reação? Imagino que foi de resignação, mas, como gato escaldado tem medo de água fria, ela foi procurar uma advogada: a Santa das causas impossíveis. Ela contou a todos que pediu duas coisas e prometeu uma: pediu que a criança nascesse viva e que fosse a última! E prometeu que, independente do sexo, levaria o nome da santa. Rita ou Cássio. E aí eu entro na linda história da dona Pepa e seu Dorato, um casal forte, cristão, temente a Deus e repleto de amor. Nasci! Ao vir ao mundo já era tia muitas vezes!!! Meu irmão mais velho já estava com trinta anos! Não co-nheci avós, não tive irmãos com idade para brincar comigo ou me acompanhar nas travessuras... mas, tudo bem,  me adaptei, fui muito amada por todos da família. Fui também bastante doente, meu pulmão era chegadinho numa pneumonia e numa bronquite... Tenho que cuidar dele com carinho, agora mais ainda! Claro que tive na vida momentos de curiosidade sobre minha existência. Mas os afazeres foram sufocando as dúvidas e eu vivi plenamente.  A história pararia aí, se, no ano de 2013, eu não fizesse as cirurgias de catarata. Através da sabedoria do amigo médico que as fez, dos exames, da própria cirurgia, ele concluiu que eu fui vítima de Tóxicoplasmose. Com simplicidade, ao revelar que nada pôde fazer para “melho-rar” meu olho direito, revelou-me que eu tinha  as cicatrizes dessa doença e que eu desse graças a Deus, pois  era fruto de milagre: poderia ter morrido ao nascer, vir com deficiências gravíssimas, cega, muda, surda e que só tive essa sequela de perda de 80% de visão num olho! Bem, ele não conhecia a fé corajosa de uma dona Pepa, do alto de seus cinquenta anos e o poder intercessor de sua Santa, a Advogada dos Impossíveis, Santa Rita de Cássia! E de tudo isso eu concluo: Grande é o Amor de Deus! Tenho muito o que agradecer! Sou resultado da intercessão da Advogada Santa Rita de Cássia e do amor misericordioso de Deus!

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Saudades da antiga Igreja - Por Rita Seda

Muitos na cidade se referem com saudade e, até com certo descontentamento, à reforma e profunda modificação estrutural da nossa “Igreja Matriz” que hoje é Santuário.Eu gosto dela como está e a acho linda e funcional. Isso não impede  que me lembre, muito bem, de como era bonita, de seu imponente  altar-mor, com a padroeira no alto, dentro de um nicho; mais abaixo, dos dois lados, dois arcanjos, um azul, outro rosa, tocando um instrumento musical, de sopro; tão lindos eram que tínhamos a impressão de ouvir música do céu... E os anjinhos pintados na abóboda? Quem viu não esquece jamais... Mas tenho muito mais  saudade é das pessoas com quem convivi naquela igreja e com saudade  recordo aquelas que já se encontram no Reino de Deus. Que tempo bom vivemos, Dona Nini Guerzoni, Dona Maria Duarte, Laura Bernadete, irmã do Homero cabeleireiro, Teresa Raposo, Lourdinha Ribeiro, Lourdes Floriano, Emília Sancho, Dona Maria do Carmo Carleti, Dona Irene e Suzana  Vilela, Dona Helena Bruzamolim, Silézia Nassar Gouveia, Dona Jalile Barude, Dona Dagmar Esteves, Prof. Alaíde Figueiredo, Alda Pinto Costa, Dona Elza Iemini, Dona Baget e Renné e tantas outras. Dona Nini só pôde participar após ficar viúva e qual não deve ter sido  seu sofrimento, pois em solteira era assídua nas missas e procissões. Mas nunca reclamou! No tempo a que me refiro, não havia escala de leitores e não havia ainda as pastorais. 

A reforma foi um grande avanço na Igreja, fruto do Concílio Vaticano II, em sua grande e necessária reforma. Naquela época  a gente saía  do  lugar onde estava, no meio do  povo, subia as escadas e fazia a primeira leitura, outra pessoa lia o Salmo e a aclamação ao Evangelho. Nossa veste litúrgica era nossa roupa decente, a roupa de todo dia. Combinávamos, antes do começo da celebração, quem leria o que e preparávamos os cantos.  Foi o nosso modo de servir. Dona Nini teve o cuidado de anotar numa cadernetinha as leituras que fazia, pois pedira a Deus que lhe desse a graça de fazer mil leituras! E foi uma festa, quando, perto de seus oitenta anos, completou-as. Ainda fez muitas mais... Eu, Dona Mariinha (Maria Duarte, assim a tratávamos pois era muito pequenina) e Laura, dávamos início aos cantos e todos os presentes nos acompanhavam, pois só tirávamos cantos conhecidos para que todos cantassem. Mas engana-se quem pensar que havia monotonia! 

A Igreja sempre teve um rico repertório. Numa época em que havia acompanhamento de violão ou órgão só nos sábados, domingos e dias festivos eram entoados “à capela” e nunca havia desafinação... O Pároco era o Padre José (Cônego, tempos depois...) e sempre teve seu vigário ou um sacerdote jesuíta para ajudá-lo a atender todas as capelas, urbanas e rurais. Neusa, a esposa do Paulo sacristão, sempre presente, muito atenciosa, era  quem anotava ali, na hora, as intenções da Santa Missa. Era muito menor o número de  intenções comparadas com as  de hoje. A secretaria não funcionava na Matriz, e sim, em casa do Pároco. Tudo era mais difícil e com as reformas pôde haver a organização de agora. Louvemos ao Senhor! Não sou contra nenhuma mudança. Pelo contrário, entendo que tudo foi bom e necessário. Estou apenas  matando saudade de um tempo e de pessoas queridas com quem fomos tão felizes, com respeito, simplicidade e amor intenso pela nossa amada Igreja. Não havia quem coordenasse as funções, nem mesmo dávamos uma passadinha de olhos nas leituras  antes, mas saía tudo certinho. Por isso as lembranças são tão boas e valeu a pena! E o tempo de Dona Maria Trindade já passara! Uma grande líder que tivemos! 

Oferecimento:

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Lembranças de uma escadaria (Por Rita Seda)

Gruta construída com as pedras da escadaria ao lado do antigo Mercado Municipal
Difícil  ver  algo  igual ou parecido. Que eu me lembre só vi uma em Ouro Preto... Mas  muito maior! Deixava a nossa no chinelo! Uma escada para dar acesso a uma rua. Até que era interessante. Uma rua que ficava ao lado de outra, em nível mais alto. Quem se lembra do nosso “lindo mercado antigo” com certeza se lembrará da escada. Eu passava ali de segunda a sexta para dar aulas no Grupão. Era toda de pedra. Dava acesso a uma pequena rua. De um lado dessa rua, não havia e nem poderia haver  casas. Do outro, era o quintal enorme da saudosa Dona Antonieta Carneiro, repleto de jabuticabeiras e outras árvores frutíferas. Havia apenas uma casa modesta. No tempo de minha infância, ali morou Dona Marta, grande amiga da mamãe. Sempre íamos visitá-la. Se não me falha a memória a senhora era da família Zanzoti. Depois, a casa tornou-se sede da creche Santa Rita, por algum tempo. Ninguém entendeu para que e por que foi demolido o  mercado. Aquela construção de concreto e ferro, com um chafariz no centro, muito bem dividida, lugares para venda de carnes, de grãos, de frutas, verduras, frangos vivos, peixes em fieiras... Gente vendendo, gente comprando e gente conversando, passeando, crianças brincando, subindo em grades e escadas. Um ponto de encontro dos cidadãos e dos produtores. Um vozerio, como acontece onde muitas pessoas se encontram.  Todos os que tiveram a graça de conhecê-lo sentem tristeza por ter sido destruído. Modernizar é preciso... atender ao crescimento da cidade, da população, mudanças no estilo de vida! Mas não poderia ter sido construído o que melhor a-tendesse à época e conservado o antigo, como forma de memória cultural de um tempo que se foi? E se o conservassem e lhe dessem outra destinação? Estava velho, estragado? Para que existe reforma? Algumas pessoas só conhecem a palavra demolição... O mercado antigo e o matadouro, duas construções que fazem falta à tradição da cidade, saudosas para nós mais idosos e os jovens, só por fotos  poderão ter ideia do que a cidade perdeu... Já que estou tocando no assunto, aguardamos com impaciência a restauração do prédio do Cine Teatro, da sede das Cravinas e do Centro Operário Santarritense! Nós temos certeza que com estes não acontecerá de desaparecerem... Nossa sociedade anseia  que sejam feitas logo  essas restaurações e que sejam aproveitadas em Cultura... 

Bem, voltando à velha escada...Ficou só na memória de quem viu, mas, ao substitui-la por uma rua, que acaba mais abaixo do que era a escada, pelo menos permitiu a construção de moradias na parte de cima, de um jardim lateral onde foi construída uma gruta de Nossa Senhora, e uma praça arborizada. Quem passa ali de manhã pode ver as “Margaridas” de vassoura e carrinho em punho, fazendo a limpeza.  Vão me dizer que não sabem que no canto da pracinha do antigo mercado tem uma gruta? Apesar de sacrificar a escada, essa foi uma ideia aceitável. Por interessar-me pela nossa querida cidade, observo muito. Congratulo-me com a reforma da pintura do prédio da antiga cadeia. Deu outra vida ao pedaço. Feita por homens que cumprem pena no presídio da cidade. Fez com que usassem bem o seu tempo, antes ocioso. Ganharam dias descontados em suas penas, aprenderam um ofício e ainda se submeteram a uma vida disciplinada, passo importante na reeducação. O Fórum e a fachada do Cine Santa Rita também ganharam pintura nova do trabalho deles. Bendito o jovem e talentoso juiz com suas ideias inteligentes e práticas. Uns destroem, mas outros reformam, educam, investem e prestam relevantes serviços à comunidade. Não choremos sobre o leite derramado... Fiquemos satisfeitos com as boas iniciativas! E parabéns, Meritíssimo!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Leite ao pé da vaca! (Por Rita Seda)

Teve um tempo (década de quarenta) em que esta, que hoje é a bela avenida João de Camargo, mais conhecida como avenida do INATEL,  era quase só mato. Devia haver uma ruazinha... não sei! Lembro-me da casa de Dona Cilencina Teles,  filha do Sr. Sanico. A casa era um lindo palacete, florido por todos os lados. Extremo bom gosto. A avenida que existe em frente à casa, hoje, já produziu rosas, cravos, jasmins, agapantos, lírios... Dona Cilencina fornecia flores para o enfeite da Igreja Matriz. Com enorme bondade e paciência, ela mesma ia colhendo diversas espécies... Minhas irmãs mais velhas, Filhas de Maria, estavam sempre em seu maravilhoso jardim, (e eu, atrás!) pois tinham a missão de enfeitar aquele altar-mor de mármore, cheio de degraus, com dois belos arcanjos tocando trombetas, um de cada lado... Bem no alto havia o nicho da padroeira, e, de degrau em degrau, elas colocavam jarras de  flores, até o nicho. Era um capricho só! O sacristão, Sr. Arthur Pereira, pai do Dr.Arlete, avô da amiga Cidinha Mesquita, Gema Heleonora e Regina do Hermes,   sempre estava presente para ajudar no que elas precisassem. E por falar na família, não posso deixar de lembrar  Dona Irene, esposa do Dr. Arlete, uma pessoa que eu muito admirava! Durante muitos anos foi a organista da Matriz. Ficou radiante quando batizei minha filha caçula com o seu nome! No prédio central do INATEL ficava o IMEE, Instituto Moderno de Educação e Ensino, fundado em 1918. Entrando um pouco naquilo que é especialidade do Ivon, lembro aqui que, antes, em 1912, Antônio de Assis Longuinho, José Mendes e Dona Cilencina Teles fundaram o Colégio Santa Rita. Em 1918, o Dr. Leopoldo de Luna e Dr. João de Camargo transformaram o tal colégio em dois institutos: Instituto Moderno de Educação e Ensino, para rapazes e Escola Normal Oficial, hoje E.E.Sinhá Moreira, para as moças. Dito isto, voltemos à avenida. Descendo, de um lado ficava a casa de Dona Espanha e Sr.Henrique Del Castilho, dono do  colégio, nessa época; do outro lado ficava  a casa da Doutora Maria José Mendes, que ali lecionava. Não havia outras. Essas lembranças estão embaralhadas na minha memória, que é seletiva. Sei que fiquei penalizada quando soube que um pedaço daquele jardim maravilhoso ia ser aterrado... não sei quando foi aberta a avenida, quando e como foram sendo construídas as casas... Será que foi quando Dona Sinhá construiu o Bairro Vista Alegre? Pode ser! Não nasci para memorialista!

Mas lembro-me muito bem que onde é hoje a avenida, mais ou menos onde é a Escola Estadual Sanico Teles, o Sr. Sanico, pai de Dona Cilencina,  tinha um curral, onde meu pai me levava todo dia bem cedo, para tomar leite fresquinho. Na caneca já ia o açúcar e depois de cheia, direto do peito da vaca, pelo próprio Sr. Sanico, bebia aquele espumoso leite quentinho... Meu pai, que trabalhara muitos anos formando cafezais para os fazendeiros daqui, naquele tempo já estava alquebrado, não trabalhava mais para os outros e se dedicava a fazer tanta coisa por mim! Lembro dele, foice ao ombro, procurando pelas estradas cachos de gravatá para ferver com açúcar e transformar em um xarope para tentar curar minha bronquite. Hoje não vejo mais gravatá. Acabou? Não me deixava ir dormir sem fazer, ele mesmo, um chá de hortelã ou de cidreira para que eu tivesse um sono gostoso! E vendo que eu gostava muito de flores ajudava-me a cultivá-las em nossa casa. Sei que estão morrendo de inveja por eu ter esse pai! Pena que o perdi no começo da adolescência... Eu não queria ter sido a última, queria ter sido das primeiras filhas para curti-lo bastante!

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Cel Francisco Palma, a minha rua... Por Rita Seda

 
Antigamente, minha rua era pacata. À tarde, o pessoal sentava em cadeiras na frente das casas e punha a conversa em dia. Havia serenatas nas noites de lua cheia e os namorados passeavam livremente pelas calçadas, enquanto a criançada brincava de pique, de roda, de passa-anel, de amarelinha ou de gude. As mocinhas gostavam de sentar nas portas das casas para conversar e ver estrelas. As portas davam para a rua...As janelas não tinham grade. Era uma rua pacata, mas impregnada de vida, de amizade, de alegria.Nela, nasci e vivi sempre. Assisti à sua mudança... E quanta mudança! A maioria das minhas recordações estão ligadas a esta rua. Do lado em que fica minha casa, só tem dois quarteirões. E, no meio deles, uma esquina que cruza com a Rua Cel Joaquim Inácio. Ah! O nome da minha rua é Cel Francisco Palma. Ali, naquela esquina, batia o coração das duas ruas... Eram quatro pontos inesquecíveis. De um lado, no lado da minha casa, um bar. Pertencia ao Sr. Augusto Rafael de Souza, pai do Sr. Nivaldo, o Didi, (que continuou o trabalho do pai por muitos anos), e pai, também, do Renato, grande amigo e companheiro vicentino. Aquele que trabalhava na farmácia do Sr. Anardino e que entende tão bem da arte farmacêutica. Do tempo do pai, embora sendo amiga de sua esposa, dona Zina, não me lembro muito bem, mas no tempo do Didi, sei que era um ponto de encontro de amigos, ambiente familiar, onde todos eram atendidos com a máxima cortesia. Que saudade! Nunca antes, houve em Santa Rita sorvetes artesanais de igual qualidade. Eram caprichados. Ficaram famosos. O picolé de limão reinava absoluto. Do mesmo lado da rua, na outra esquina, era uma farmácia. Seu Tonico, esposo de dona Ritinha Marins, era o farmacêutico. Uma casa pequena, de alpendre e com minúsculo jardim. Os medicamentos ficavam na salinha da frente. Uma escadinha levava à outra sala, onde era o laboratório, local de curativos e de injeções. Ele manipulava uns remédios numa cápsula enorme que a gente tinha que engolir na marra! Quase toda tarde, sua filha Neusa tocava valsas ao piano, na sala de visitas da casa. Gostava de ouvir! Eles tinham uma empregada, irmã do Antônio e do Paulo Tobias, grande amiga e companheira das minhas irmãs. Sua vida foi servir, com fidelidade, a essa família. Dona Ritinha era professora no “Grupão”. Do outro lado da rua ficava a Padaria Central. Pelo menos, de um nome de estabelecimento eu me lembrei...pertencia ao avô do José Carlos, do Cassinho e do Vaguinho. Seu nome era Francisco Resch, um alemão exímio na arte da padaria e da confeitaria. O que eu mais gostava das delícias que ele fazia era a bolacha margarida. Vivo com seu gosto presente na memória. Era redonda, grande, amarela e perfumada, toda rachadinha, como se tivesse sido craquelada pelo seu Chico... A esposa se chamava Ella, apelidada Lola. Tinha os filhos Carlito, que também foi um ótimo padeiro, era casado com minha amiga Carminha e passou o ofício aos filhos: Roberto, Pai do Chicão; uma filha chamada Elza e o último, de cujo nome não me lembro, era apelidado Picolé. Por fim, do outro lado da rua, a marcenaria do Sr. Herculano Silva. Que cheirinho mais gostoso exalava naquele rústico lugar, cheio de máquinas enormes e de madeiras de todo tipo!  Hoje tomou seu lugar a  loja Olhaki. Meu Deus, como eu dava trabalho àquele santo  homem! Precisava de ripas para colocar nos cartazes da escola, corria a pedir-lhe. Quebrava uma cadeira, mesa ou outro móvel, corria a ele. No tempo de natal quem me fornecia a serragem para o presépio? Não podia ser outro...Tenho as melhores lembranças daquele homem bom que foi tão paciente comigo. Era costume da rua: os pais eram pais de todas as crianças que por aqui moravam. A estes donos do miolinho da minha  rua, figuras simpáticas e queridas, que já se foram do nosso convívio há tanto tempo, sempre dei e dou  grande valor. Povoaram a minha história de delicadezas, simpatias e coisas boas. Hoje, rezo por eles, numa forma de reconhecimento, de amor e de saudade. Se todos fossem iguais a vocês...

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quarta-feira, 3 de abril de 2013

Estamparia Santarritense e Rodoviário São Cristóvão (Por Rita Seda)

Ninguém em Santa Rita precisava de relógio para saber as horas... O apito da Estamparia, direcionado a seus funcionários, servia  a todos.

-Menino! A Estamparia já apitou, você está atrasado para a aula! – Não ouviu o apito? Seu almoço está esfriando. - Agora não posso parar, tenho um compromisso e a Estamparia já apitou. - Graças a Deus, mais um dia ganho! O apito da Estamparia está anunciando o fim de mais uma jornada!

Todos queriam um emprego na Estamparia, modelo de empresa idônea. Meu irmão mais velho, o Pedrinho, trabalhava ali. Operava uma gigantesca máquina, com orgulho e eficiência. Gostava de seu trabalho. Ambiente sadio, patrões excelentes e colegas amigos. Mas como todo jovem ele tinha um sonho: comprar um caminhão. Trabalhar com transportes de carga, devorar distâncias, conhecer novas terras, aventurar-se pelas estradas, onde o panorama muda de curva em curva, mesmo sendo as estradas de terra e intransitáveis na temporada de chuvas. Como não tinha cacife para isso e naquele tempo não havia as facilidades de crédito que existem hoje, costumava, regularmente, fazer uma fezinha na loteria. Toda semana ia ao Caruso e voltava com seu bilhete. Conferia, esperançoso, e voltava a sonhar com seu caminhão até na rotina de seu trabalho... Mas, um dia, teve a grande sorte! Foi premiado! Comprou um caminhãozinho, ou melhor, um pequeno caminhão... E passou a transportar as folhas de flandres da Estação Ferroviária para a Estamparia Santarritense. Dizia ele que, no primeiro dia, sem conhecer a capacidade do carro, foi, com aquele entusiasmo que lhe era peculiar, colocando a carga até não caber mais. Quando acionou a partida, quem diz que o carro andou? Ficou ali empacado, igual a uma besta quando não obedece ao dono! Desse fato tirou uma lição que  repetia em nossos momentos difíceis: “É errando que se aprende!” 
Com tenacidade e firmeza de caráter foi progredindo. Comprando novos e maiores caminhões, passou a fazer transporte para São Paulo e fundou o Rodoviário São Cristóvão. Deu emprego para muitas pessoas, entre motoristas, carregadores, pessoal de escritório, contadores, sem jamais deixar a Estamparia. Foi sua cliente até o fim de seus dias. Havia, entre as duas empresas, uma amizade que ultrapassava  o profissionalismo. Pedrinho e seus companheiros de trabalho passaram muitas tribulações nas estradas. Para São Paulo o caminho era Cachoeira de Minas, Conceição dos Ouros, Paraisópolis, São Bento, Buquira, Jacareí, e iam passando por outras cidades até chegar à Capital, depois de três, quatro dias... Nas chuvas, encravados no barro, puxados por carros de boi para desatolar, tirando o barro com a enxada, colocando correntes nas rodas... Muitas e sinceras amizades surgiram da demonstração de solidariedade dos donos das boiadas, bares, restaurantes e pousadas!  Numa da viagens, o caminhão pegou fogo e meu irmão se queimou muito. Trouxeram-no para casa embrulhado em folhas de bananeira e  lençol. Lembro-me com grande dor desse aconteci-mento. Mas venceu, fez  o bem para muita gente, tinha grande número de amigos, a muitos ajudou e teve uma vida de sucesso e grandes alegrias.  De outra vez, trago um pouco mais do dia a dia desse  amado e saudoso aventureiro que teve coragem de transformar em realidade um sonho que mudou a rotina de nossa cidade.
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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Um passeio de barca pelo Rio Sapucaí (Rita Seda)

Não tinha certeza. Essa foto trouxe-me mais indagações e dúvidas ainda. Só tinha certeza de que meu pai teve uma barca no Rio Sapucaí. Essa certeza vinha das longas conversas de família e bem mais tarde de uma fotografia, essa que trago para a análise de vocês. Ela traz um grupo em elegante pose, parece que pronto para iniciar um passeio. Até onde iriam em nosso tranquilo Rio Sapucaí? Deve ter sido uma aventura e tanto! A barca balançando, o pessoal se equilibrando, alguns com medo, outros confiantes, apenas aproveitando uma tarde de lazer.  Que linda paisagem se descortina! E as águas calmas, próprias para a aventura... Na foto, vemos pessoas de terno completo, outros em mangas de camisa, as crianças, moças e senhoras muito bem vestidas. Alguns mais descontraídos do que outros. Um senhor de terno traz uma tarja de luto na lapela. Deixo a vocês a tarefa de descobrir as identidades... Sei quase todas! As indagações que trago intimamente são referentes a algo que me ocorreu quando examinei a foto. Fazia ela apenas passeios ou fretes também? Carminha, minha irmã, não soube responder, só sabe que muito passeou de barca... o que não aconteceu comigo, a rapa do tacho que, na ocasião da foto,  ainda não tinha nascido. Meu pai, um  sardo lutador, não devia ter um objeto desses só para passear... Ainda mais que meu irmão Pedrinho introduziu em nossa terra,já naquele tempo, o transporte em caminhões, o Rodoviário São Cristóvão! Em meu modo de ver as coisas, já que não tenho certeza, eles já faziam fretes de barca; tendo obtido algum sucesso ali, deve ter sido atiçada neles a vontade de ir ainda mais longe... Então, entra o empreendedorismo do mano mais velho, o Pedrinho. A aventura estava no sangue daquele que era filho de italianos, imigrantes à busca de um ideal.  Meu pai já devia estar cansado de formar lavouras e enriquecer os fazendeiros... Já estava com a vida estabilizada. Pedrinho, funcionário da Estamparia Santarritense era um homem de visão e coragem. Por que não? Dessa embarcação que eu nem conheci deve ter surgido o famoso Rodoviário São Cristóvão, menina dos olhos desse meu querido irmão. Como é encantadora a foto histórica e como nos dá a chance de admirar a paisagem, com a barca à frente no Rio Sapucaí, as pessoas da época... Qualquer dia destes trarei mais histórias para a nova geração saber um pouquinho do pioneirismo que marcou a nossa terra. Cada família, cada época, cada cidade tem uma história de vida que nos seria tão interessante conhecer!  Construamos o futuro sem deixar esquecido o passado.