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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Educação para o pensar (Por Danlary Tomazini)

E se crianças descobrissem que cozinhar os alimentos é possível devido a reações Químicas? Que a Física entendeu como nos locomovemos ou por que nos mantemos em pé? Que andarmos em ruas de asfalto ou de paralelepípedos está relacionado à Geografia? E se as escolas deixassem de ser receptáculos para crianças cujos pais trabalham fora, ou centros de formação em massa de mão de obra? E se todos compreendessem que, mesmo a matéria que menos interessa, só está lá porque nos auxilia a entender quem somos, como somos e, até mesmo, por que somos? E se o aprender se tornasse fonte vital da existência?
Nesse mundo ideal, as escolas teriam tantas aulas práticas quanto fosse possível. Acabariam as carteiras enfileiradas e os círculos de gente tomariam conta de todos os espaços. Os alunos aprenderiam que ter empatia é um conhecimento muito importante, o respeito seria natural e não fruto de imposição. A participação seria inevitável! Quem é que não quer fazer parte de uma rotina assim?

Parece utopia, mas não é. Não precisamos mudar o mundo todo, apenas a nossa cidade! 

Um ensino assim é um dos objetivos da “Educação para o Pensar”. Antes de formar profissionais, as escolas precisam formar pessoas. Ainda que a educação seja de responsabilidade dos pais, é na escola que nossos filhos passam a maior parte do tempo. Sendo assim, por que não incutir maiores reflexões na vida dos pequenos? Quem sabe, desta forma, um dia eles se tornarão os pais que os profissionais de ensino tanto sentem falta hoje: os que interagem com a escola em prol da comunidade. 

Essa é uma meta a longo prazo, mas estamos caminhando para concretizá-la. Já tivemos o 1º Curso de Capacitação em Educação para o Pensar e o 1º Encontro de Filosofia para Crianças e Jovens – Educação para o Pensar de Santa Rita. O próximo passo será finalizar o projeto de Lei que tornará a disciplina obrigatória no Currículo Municipal de Ensino e levá-la à Câmara para votação. 

Se o mundo não é mais o mesmo, por que a Educação deveria ser? 

(Danlary é moradora do bairro Rua Nova)

quinta-feira, 28 de maio de 2015

O trabalho de Dona Chica (Por Danlary Tomazini)

Em um dia qualquer, depois de uma tarde passeando pela Festa junto com as crianças, sentei para descansar e peguei carona na conversa alheia. Dona Chica – que há 17 anos vende seu artesanato próximo ao coreto e parece conhecer todos na cidade - contava um de seus muitos causos e histórias sobre Santa Rita do Sapucaí e os fatos me deixaram curiosa. Ao terminar, indaguei: “E a Festa, Chica? Tem muita história?” A resposta rendeu assunto. Chica me deu uma aula de contos santa-ritenses, enquanto ela própria, cheia de nostalgia, por vezes com os olhos marejados, relembrava detalhes da sua infância. 
A festa não foi sempre assim, disse ela. Houve tempos em que as barracas eram montadas circulando a Praça da Matriz e romeiros vinham de fora somente para celebrar o aniversário da Santa com os cidadãos daqui. Sinhá Moreira contratava cozinheiras para preparar o almoço do dia 22, que era servido na praça, para quantos pudessem comer. Enquanto os mais velhos se serviam, moços e moças circulavam em uma discreta paquera. Já as crianças, ficavam aguardando, ansiosas, por aqueles que depositavam donativos na urna da imagem que ficava em frente à igreja velha, somente para retirar alguns trocados para si, seguidos de um “com licença e obrigado” para a Santa, antes de irem felizes (e um pouco pecadoras) comprar cartuchos de doces e outras novidades. Nada de eletrônico nessa época. O que fazia sucesso entre a garotada eram os vestidos de chita e as pequenas galinhas de madeira que, quando apertadas, expeliam um ovo.

Confesso que em meus primeiros anos aqui, não entendia muito bem a Festa de Santa Rita. Sou de outra terra, de outras festas. Mas, ainda que os tempos sejam outros, ouvir essas histórias, ver pessoas em volta participando da conversa e saudosamente recordando, enquanto meus próprios filhos ficavam curiosos e extasiados com todo o ar de novidade que invade nossa cidade no mês de maio, me colou um sorriso no rosto e entendimento no coração. Finalmente, o tempo de barraquear chegou!

Oferecimento: Supermercado Avenida - Unissul.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

De lá para cá... (Por Danlary Tomazini)

Era mais uma noite. O corpo exausto pedia descanso, desejando se livrar dos dias incertos vividos. A mente não desligava. Como seria o amanhecer? O quanto andaríamos? Onde seria a próxima cama? Quando finalmente chegaríamos ao nosso destino? Adormecemos todos na carroceria do caminhão estacionado – eu, minha mãe e os quatro cachorros - somente para acordar momentos depois, atônitas, com a chuva gelada no rosto. Ela chegou de surpresa, rapidamente, encharcando-nos e a pequena mala que levávamos. Raramente passa pela cabeça das pessoas a dificuldade de um morador de rua para lavar e secar roupas, algo muito mais raro de conseguir, do que um prato de comida, por exemplo.
Esse é um dos episódios que passamos ao caminhar nas estradas a caminho de Santa Rita. Ao contrário do que possam pensar, não falo sobre ele com intuito de causar comoção. Foi mais um de vários acontecimentos derivados de escolhas que tomamos conscientemente e, assim como outras situações, relembro com sorrisos. Afinal, quem nunca tomou um bom banho de chuva?

Dias depois, em 17 de Abril de 2009, pisamos pela primeira vez em solo santa-ritense. Coincidentemente, foi no mesmo mês que, há um ano, o Empório publicou uma matéria sobre minha mãe, Lauir, resumindo perfeitamente um pedaço da história dela e nosso trajeto até aqui. Diante disso, registro nessa coluna um discreto agradecimento a todos envolvidos conosco, desde que chegamos. Um obrigada especial aos leitores do jornal que demonstraram admiração pela história relatada e que de lá para cá acompanham meus textos, participando com críticas, sugestões e elogios. Aos que me param na rua para perguntar onde se encontra D. Gaivota e a carrocinha de reciclagem, informo que, com o incentivo de muitos, ela concluiu seu curso de Assistente Veterinário, está fazendo estágio na área e continuará se especializando no cuidado de diferentes tipos de animais. 

É com prazer que completamos mais um ano de história em Santa Rita do Sapucaí. Seja bem-vindo, abril!

Oferecimento:

segunda-feira, 16 de março de 2015

Quando soube do Capitão... (Por Danlary Tomazini)

Dia desses, um casal em um carro com placa do estado de São Paulo parou para pedir informação: “Você pode dizer como faço para chegar no bairro mais moderno da cidade?”. Percebendo minha cara de indagação, completou: “Meu filho veio fazer vestibular e achou tudo muito antigo. Tenho algumas horas para achar algo que o convença a ficar.” Se, para um jovem estudante, estar no Vale da Eletrônica não era moderno suficiente, o que poderia ser?
O céu límpido e a quantidade de histórias que preenchem cada canto da cidade é que me dão prazer de aqui estar. Encanta-me conviver com pessoas que dão cores às histórias e que se sentam prazerosamente à beira da calçada, para relembrar personagens que já me soaram estranhos, mas que, aos poucos, tornam-se tão queridos como se eu fosse nascida aqui.

Nada mais moderno que famosos ou anônimos que inspiram e fazem acontecer. Tome aqui, forasteiro, a labuta de D. Iracema; o ativismo de Maria Bonita; a dedicação da professora Paz; a integridade do Capitão Paulo, meu novo “conhecido”.

Certa manhã, eu passei alguns minutos na prefeitura olhando as fotografias por lá expostas. Demorei mais em Paulo Cunha Azevedo, o 25º governante da cidade, tentando associar a figura imponente de barba e bigode bem feitos com o homem que não tinha medo de pôr a mão na massa. Saía constantemente de seu gabinete para participar do andamento das obras, trabalhava nas pás e enxadas, até foi tratorista na construção da galeria de esgoto que começa na pracinha do Murilo e termina lá na ETE.
Com muita simplicidade, objetivo e disciplina militar, dirigiu tudo quanto pode em sua vida: o Colégio Sinhá Moreira, a carreira política, seus 10 filhos, o exercício da advocacia, e até mesmo a presidência do Ride Palhaço. Era apaixonado pelo carnaval. Gravou o hino do Ride para um dos desfiles e, enquanto esteve à frente do bloco, nunca permitiu que o mesmo se apresentasse fora da mais completa harmonia. Era ilustre o Capitão que, na verdade, foi reformado com a patente de Major, mas não se importou de preservar o já conhecido apelido – e sua memória continua brilhando.

Saí rapidamente dos meus devaneios e, na solidariedade materna, tentei abastecer aqueles pais desesperados com argumentos que satisfizessem o estranho perfil de modernidade que procuravam.

Falei tanto e esqueci-me de mencionar: eu também sou uma apaixonada forasteira.

Oferecimento: Acevale

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Uma santa-ritense e sua paixão pelo skate (Danlary Tomazini)

Depois de uma semana com desencontros e muita chuva, saímos a procura de Gabriele, pela vizinhança. Para nossa surpresa, todos com quem conversamos do Beco da Creche até a Rua Nova, onde mora, sabiam de quem se tratava. Ao chegar sem aviso em sua residência, encontramos uma família bastante hospitaleira, e uma garota amável, porém, um pouco receosa com a nossa entrevista. Extremamente tímida e delicada, ela poderia ser mais uma adolescente que, aos 15 anos, divide o tempo entre os estudos, os dedilhados no violão e coisas típicas da idade, não fosse por uma paixão: o skate. Acostumada a praticar atividades esportivas desde pequena, quando estava com 12 anos sua turma da escolinha de futebol, no Alcidão, parou de frequentar os treinos e ela sentiu a necessidade de escolher um novo esporte. “Eu não consigo ficar parada”, disse Gaby, e foi aí que teve a ideia de pedir um skate para a mãe. Na companhia do padrasto, Humberto, também skatista, começou a frequentar a pista na Beira-rio e não parou mais.
De lá para cá, Gaby evoluiu bastante sua técnica e, em junho desse ano, motivada por seu primo Breiner, participou de sua primeira competição, o “Circuito The Point de Skate” na cidade de Cambuí. Ganhou em primeiro lugar na categoria Feminino, onde concorreu com mais três garotas do Sul de Minas.

Aqui na cidade, entre as mulheres, ela é veterana. A prática do skate chegou a Santa Rita em meados dos anos 80 e, desde então, era praticada quase que somente pela ala masculina. Outras garotas já se aventuraram antes, mas todas abandonaram logo. Gaby é a única que continua firme. “Muitas meninas têm vontade de andar, até me pedem para ensinar. Mas todas têm medo de cair, de se machucar. No skate isso é inevitável, tem que ir sem medo”, explica ela que, quando anda, demonstra uma incrível desenvoltura e tranquilidade nas manobras. 

Gaby conta também que sofre alguns preconceitos. Muitas pessoas ainda enxergam o esporte como inapropriado para meninas e, frequentemente, é alvo de más línguas. Mas isso não a abate e, com o incentivo da mãe Sidnea e demais familiares, ela afirma que se sente muito bem quando está andando e não pretende parar.

É com determinação que expressa também a vontade de se profissionalizar, o que só não ocorreu ainda, pois, segundo ela, apoio e patrocínio são difíceis de se conseguir na cidade, tanto por parte da prefeitura, como pela falta de uma loja especializada em produtos do ramo que, geralmente, são as responsáveis por auxiliar esportistas do gênero.

Ainda esperamos ouvir muito o nome de Gaby. Mais um talento com que a Rua Nova presenteia a cidade. 

(Por Danlary Tomazini)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O coração de Dona Maria (Por Danlary Tomazini)

Em 1999, D. Maria acolheu a bisneta Manoela, com pouco mais de um ano e portadora de necessidades especiais. Em 2002, notícia inesperada: dois bisnetos que ela nem sabia da existência, estavam em um abrigo infantil em Campinas. Assumiu prontamente o posto de acolhê-los. Quatro meses se passaram, a papelada oficial transitava entre o fórum das duas cidades e, em uma quinta feira, recebeu o aviso. As crianças deveriam ser retiradas naquela tarde. Maria, que no dia anterior fizera um cateterismo, ignorou a ordem de repouso e foi buscar os pequenos Felipe de um ano e meio e Vitória de nove meses. Pouco tempo depois, Manoela não resistiu aos problemas de saúde e faleceu.

Em 2010, a história se repetiu. D. Maria tomou a frente da criação de mais dois bisnetos, João Pedro, 4 e Gabriel, 1. A essa altura, as pessoas, sabendo que D. Maria e a família viviam de modo simples e com certa dificuldade, chamaram-na de louca. “Deixa levar para o abrigo” um conhecido falou. Mas D. Maria diz que louco mesmo é quem acha que ela largaria sangue do sangue dela longe do amor da família. E não parou por aí. Ano passado recebeu o João Lucas que está com um ano e três meses. Maria não se arrepende de nada: “Foi Deus quem colocou essas crianças na minha vida”. Agora ela sonha em ver os bisnetos formados, sair do aluguel e finalizar sua casa para deixar um teto aos bisnetos e à filha mais nova, Aline: seu eterno braço direito que, afetuosamente, participa na criação das crianças, hoje já crescidas.

Maria Aparecida Silva de Barros, 75 anos. A menina que chamava Dona Marieta Capistrano de “Mãe Ota” e aprendeu com ela a religião e a importância de ajudar quem precisasse. Viveu em Santa Rita até os 21 anos e, apesar da educação conservadora que recebeu, recorda-se saudosamente dos bailes que frequentou no 13 de Maio. De volta a Santa Rita, quatro filhos, 10 netos e 22 bisnetos depois, talvez já não seja tão menina, mas mantém o sorriso, a alegria e, principalmente, o amor de menina. Amor puro e verdadeiro.

Oferecimento:

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Existe amor em Santa Rita? (Por Danlary Tomazini)

Pauline conheceu o Rafael em uma sala de bate-papo da Uol. Trocaram MSN, Orkut e, dois anos depois, foram morar juntos, com apenas uma geladeira, um colchão e toda coragem que o amor proporciona para realizar em conjunto. Oito anos se passaram e a escolha de envelhecer ao lado um do outro se fortalece a cada desafio.
Fabiana deu o primeiro passo: pediu o Demétrio em casamento, quando completaram cinco anos de namoro e ele disse sim, sem pestanejar. Há 18 anos se completam, mesmo agora, enquanto ele faz ‘as vezes’ de mãe e ela de pai, uma forma de manter os filhos fortalecidos e em união para enfrentar os problemas de saúde do filho mais velho. Fabiana afirma e confirma que só um casal que se ama supera todas as dificuldades juntos.   

Há alguns anos, Cleverton andou quilômetros embaixo de chuva, só para passar algumas horas com Bruna Elisa, sob o vigilante olhar dos pais da moça. Um amor que começou ainda na infância e que enfrentou muitos desencontros para, hoje, finalmente, desfrutar a convivência diária e a descoberta um do outro no matrimônio.

“Quem disse que para estar junto precisa estar perto?” disse Ursula se referindo ao seu esposo Caio. A paixão dos dois começou ainda na adolescência, resultou em filhos lindos, se transformou no amor que supera a diferença de idade e enfrenta a distância, diariamente, sem deixar de somar.
Sirlei e Luís Roberto. 28 anos de casados e ela conta que, ao olhar para ele, sente os mesmos “tremores” de quando o viu pela primeira vez. Luís liga todas as manhãs só para dar um bom-dia e, mesmo depois de dividir uma vida inteira, sentem prazer em fazer tudo juntos, dividindo os mais simples momentos do dia-a-dia. Um legítimo romance que faz qualquer pessoa sorrir ao ouvir os detalhes. 

Em meio a tanta discordância, intrigas e palavras torpes correndo soltas pelo mundo, pessoas encontraram maneiras de transformar as diferenças, viver como um só e se alegrar compartilhando isso. E eu pergunto: em Santa Rita tem amor? Tem também. Tem, sim senhor.  

Oferecimento: Zomng Comunicação

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Um novo começo (Por Danlary Tomazini)

É do conhecimento de muitos o período em que minha mãe e eu moramos na favela ou nas ruas de São Paulo e de Santa Rita do Sapucaí. Antes de optar por fazer uma trajetória que, para alguns, é impensável, tivemos que dispor de todos os bens materiais que possuíamos. Algumas coisas doamos, mas, na maioria, decidimos colocar fogo. Sim, algo incomum. Isso foi um marco em nossas vidas, determinando um recomeço. Nem por isso foi fácil. Levamos dias decidindo o que queimar, o que doar e, principalmente, desapegando-nos de tantas coisas que faziam parte de quem éramos. Coisas que valiam muito em dinheiro, outras que valiam muito para a emoção. Chorávamos enquanto víamos tudo transformado em cinzas e, até hoje, quando conversamos sobre isso, sinto um aperto no coração. 
Foi esse aperto que senti no dia 16 de agosto de 2014 quando, pela manhã, me deparei com duas negras nuvens de fumaça pintando o céu. Angústia em pensar nas perdas que alguma família estava sofrendo naquele momento. Um sentimento equivalente a nada, se comparado ao daqueles que, ao contrário de nós, não escolheram passar por aquilo.

O incêndio que aconteceu no Depósito de Reciclagem Sapucaí marcou a história de Santa Rita. Não só por ser um evento trágico que teve alcance dos meios de comunicação, ou ainda, por mostrar a solidariedade de muitos que,  como podiam, auxiliaram para conter as chamas, ainda sem a presença dos bombeiros. Esse incidente revelou uma família que não se entregou ao luto de perder seu meio de sobrevivência. 

Fábio e Vania Silveira, donos do depósito, não se envergonharam em recomeçar quase do zero. Estavam de volta, um dia depois, colocando a mão na massa como sempre fizeram, distribuindo sorrisos, gentilezas e boas palavras, seja aos clientes, funcionários ou àqueles que, de alguma forma, procuraram ajudar. Não importa o tempo que levar para que todos os prejuízos materiais sejam ressarcidos. O mais importante está feito: deixaram um exemplo a mais de perseverança e união na história da nossa cidade.

Oferecimento:

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Um baiano que canta e encanta (Por Danlary Tomazini)

Lourival Cruz Gomes, 66 anos, casado, filhos e netas. Uma daquelas pessoas em que esbarramos por aí e pensamos que é gente como a gente. Engano comum. Os privilegiados que andam em seu táxi, descobrem que uma corrida pode ser sonora e aprazível. Sempre conversando, cantando e encantando, é assim que leva as pessoas a seus destinos.
Toda essa alegria tem motivo. Baiano do Táxi, como é conhecido, deveria mesmo é ser chamado de Baiano da Música. Apesar de nunca ter entrado em um conservatório, ele possui o dom da composição e interpreta suas canções, sempre que possível, com um timbre de voz grave e confortável.  

Comunicativo, Baiano conta como valoriza a Deus e, ao invés de utilizar seu dom para fazer fortuna, preferiu estruturar sua família na simplicidade e fazer da música seu prazer e realização pessoal. Prova disso é seu trabalho voluntário na Rádio Comunitária da cidade com o programa “Todos os Ritmos” que possui assíduos ouvintes, ou o Luau da Seresta de que participa todo mês, sem receber cachê. 

Em 2013, tirou sua carteira profissional de cantor na Ordem dos Músicos do Brasil, cantando quatro canções de sua autoria, deixando a banca examinadora impressionada. Merecido reconhecimento para nosso artista de alma e coração que já gravou dois CDs, o primeiro em 2011 intitulado “Carinhosamente” e o segundo em 2014 “Berço Verde”, ambos produção independente que pagou com suas economias e realizou em um estúdio aqui da nossa cidade.

Nasci e cresci em uma escola de música, fui musicalizada, porém, nenhum dom musical possuo. O que sempre me encantava e fazia feliz era conviver com músicos, musicistas e assistir de camarote todo aquele viver musical que cercava as pessoas que ali estavam. Conhecer o Baiano me trouxe boas recordações. Que prazer dividir nossa cidade com esse talento! 

Em tempos de dores e angústia, a música é o bálsamo da alma. Mas para quem vive a música, suspeito que a vida seja só de alegrias. Que o diga o grande Lourival Bahia.

Oferecimento:

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Um hermano entre nós (Por Danlary Tomazini)

Nas cidades onde os jogos da Copa aconteceram, ter a presença de estrangeiros foi uma sensação tão grandiosa quanto o Mundial. Os forasteiros foram motivo de atenção dos brasileiros que se empolgaram com a diversidade cultural concentrada no mesmo lugar.
Enquanto isso acontecia, nossa Santa Rita permaneceu quase silenciosa, sem mostrar tanta empolgação pelo evento polêmico que marcou a história do Brasil. Mas, quer saber? Somos privilegiados. Não precisamos de nenhuma festa em grande escala para atrair diferentes povos. Temos nossos próprios gringos. 

Alguns apenas passam, outros resolvem ficar e fazer da nossa cidade seu lar definitivo. São chilenos, angolanos, australianos, britânicos, argentinos. Sim! Temos um argentino entre nós. Há quem diga que o fiasco da seleção na Copa é culpa dele e da sua torcida por nosso país.

Ariel Galarza, 32, encara as piadas e brincadeiras com sorrisos e gentileza. Ele, a esposa Gláucia – brasileira – e o filho, vivem há cinco anos em Santa Rita. Escolheram aqui para morar devido ao interesse por eletrônica e a admiração pelo trabalho social desempenhado pelos Jesuítas. Mas cursar a ETE foi um desafio. Sem entender nada de português, Gláucia se matriculou e o ajudou a acompanhar os estudos. “Os seis primeiros meses foram os mais difíceis. Tinha dores de cabeça e vontade de largar tudo, pois não entendia nada que o professor e os alunos falavam.”, conta ele.

Ariel se considera 50% brasileiro e não imagina voltar a alguns hábitos de sua cultura. Adora a variedade da comida mineira e não dispensa acrescentar frutas às refeições principais, coisa que não acontece em Formosa, sua terra natal, onde predomina uma dieta à base de sopas e cada alimento tem uma ordem para ser consumido.

Pois é, Ariel. Foi enriquecedor saber um pouco mais sobre sua cultura e história. É um prazer ter pessoas como você e sua família vivendo em nossa querida cidade. Mas, diferente de você, em termos de futebol continuarei olhando torto para a seleção de seu país, ok? 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

É menino ou menina? (Por Danlary Tomazini)

- E como é a reação das pessoas quando você fala que vai esperar pra saber?
- Eles falam que eu sou louca. “Como é que você está fazendo para comprar as roupinhas, arrumar o quarto?”

Confesso que sorri quando li isso. Foi um alívio saber que não era nada pessoal; que acontece com outras mães; que as pessoas realmente questionam isso quando você diz que está grávida e não quer saber o sexo da criança. O trecho acima é de uma conversa que tive com a Alessandra Faria. Encontrei-a por acaso através do Facebook, e fiquei contente em saber que eu não era a única em Santa Rita a esperar pela emoção de descobrir o sexo do neném na hora do parto.  

Alessandra tem uma filha de 12 anos e, há sete, tentava o segundo filho. Durante um tratamento para engravidar descobriu que tem SAFI (reagente da doença LUPUS). Na ocasião, descobriu também que uma vida já crescia em seu ventre. O médico se assustou e, diante das circunstâncias, explicou que seria necessário um caríssimo tratamento à base de dolorosas injeções diárias, para manter o bebê vivo. Assim que ela e o esposo souberam, decidiram não olhar o sexo: “A vinda desse bebê foi para acontecer muitas coisas boas em nossas vidas. Saber o sexo deixou de ser importante”, disse Alessandra. E, de lá para cá, a rotina da família mudou, a cada 15 dias ela tem consultas de pré-natal e faz ultrassom pra checar a saúde da criança.
Gravidez parece patrimônio público, todos querem passar a mão na barriga, saber o nome, o sexo, dar palpites. São tantas emoções e não nos damos conta de que a ultrassonografia chegou a Santa Rita em 1984 e, somente em 1988, surgiu a primeira clínica de diagnóstico por imagens. Antes disso, famílias desfrutavam nove meses de expectativas sem se preocupar se o enxoval deveria ser rosa ou azul. Sobreviveram e foram felizes. Assim como o meu bebê e o bebê da Alessandra, um lindo milagre que já completou nove meses de gestação, está com 2,970 kg e se prepara para chegar e irradiar de alegria a vida dessa guerreira família.

Oferecimento:

terça-feira, 27 de maio de 2014

Chegou a hora de barraquear... (Por Danlary Tomazini)

E chega meio-dia com pompa e circunstância. Os sinos badalam muitas vezes, só que agora acompanhados dos nada discretos fogos de artifício. É tempo de parar, refletir. Alguma coisa está mudando e resolvi espiar. O cheiro é de preparação, madeiras novas se transformando em estruturas, fios de energia espalhados por todos os lados, ingredientes sendo cortados e cozidos, sacolas cheias de produtos ainda embalados. Aos poucos, a paisagem ganhou cores novas, o azul e laranja predominaram e o rio ficou escondidinho, deixando aquela rua – sempre pacata – com ares novos, cheia de pessoas com feições e histórias diferentes. 
Da noite para o dia um pedaço da nossa cidade foi tomado e se transformou em outro mundo. Fiquei admirada em encontrar barracas funcionando e aproveitei para bater papo com os “barraqueiros” que estavam mais solícitos e simpáticos que o costumeiro.Afinal de contas, no primeiro dia de montagem, ainda há resquícios de tranquilidade, sem a circulação da tradicional e esperada freguesia. 

Conheci o Sr. Ciro, 68, meu conterrâneo lá do Paraná, que hoje mora em Congonhal e, há 33 anos, participou pela primeira vez da festa com uma pequena barraca de churros e pastel. Desde então, tem em Santa Rita destino certo todos os anos. A barraca cresceu, os pastéis deram lugar a maravilhosos doces, todos preparados com capricho por sua esposa, D. Emiko, 63. Conheci também o Marcelo, 37, que tem a mãe, D. Lourdes, como braço direito na hora da correria que é trabalhar durante a festa, vendendo as desejadas meias e artigos de inverno. Marcelo se diz ‘grávido’ do segundo filho, Daniel, e deixou a esposa gestante de seis meses em Belo Horizonte, onde moram, enquanto trabalha nesta temporada. 

Entre um quitute aqui e um “boa tarde” ali, ouvi muitas histórias, contei outras tantas e o que era para ser um simples passeio em busca de inspiração, acabou se tornando um bate-papo quase que de velhos conhecidos. 

É bom saber que já é tempo de Festa em Santa Rita. Chegou a hora de “barraquear”!

Oferecimento:

quarta-feira, 7 de maio de 2014

À mãe de Donizete e tantas outras... (Por Danlary Tomazini)

Quando eu e minha mãe chegamos aqui, no intuito de trabalhar na panha de café e recomeçar, não tínhamos grandes pretensões sobre o lugar. Depois de morar em tantas cidades, Santa Rita soava como apenas mais uma cidadela de interior. Grande engano. Santa Rita do Sapucaí é uma cidade pequena, mas com história de cidade grande. Uma cidade com grandes pessoas e grandes mães. 
Aqui conheci Benedito Donizete de Lima, paulista, 43 anos, que também é ex-morador das ruas de Santa Rita. Ao questioná-lo sobre o seu passado, esperando ouvir algo peculiar sobre a sua trajetória até aqui ou seus dias vivendo nas ruas, Donizete escolheu contar a única lembrança que tem de sua mãe; contou como foi criado pelos avós na zona rural e, devido à distância, raramente a via. Próximo de completar 7 anos, teve fitose e caiu de cama. Quando avisada, a mãe rapidamente mudou sua rotina. Nos dias de sua folga, chegava cedo à roça levando as frutas preferidas do filho e passava o dia todo ao seu lado medicando, cuidando e brincando. Logo ele estava sarado e, pouco tempo depois, a mãe faleceu.

Esse episódio, que reflete o amor, carinho e a dedicação de uma mãe para preservar a vida de seu filho me traz recordações da minha própria mãe, que me ensina a amar, fazer escolhas e assumir as consequências. Ensina-me a valorizar as pessoas, a buscar a humildade, saber cair e levantar. Mostra-me a caridade e quão linda ela pode ser. 

Este espaço não será suficiente para demonstrar meu apreço por minha mãe e por outras que aqui conheci e com as quais convivo. Mães que não têm limites para o amor e que sempre têm mais um pouco a dar, sem considerar qualquer adjetivo. 

Nós podemos homenagear as nossas e todas as outras mães diariamente. Basta colocarmos mais amor e caridade a serviço daqueles que convivemos e, principalmente, àqueles que nem mesmo conhecemos. Devemos deixar refletir em nós o amor materno que se sacrifica e não julga e que, apesar de erros cometidos, busca o melhor para o seu próximo. Um amor divino, o mesmo que a Bíblia ensina.

Às mães santa-ritenses, nascidas ou não aqui, expresso minha profunda admiração. Parabéns pela dedicação. Obrigada por tanto me ensinarem.