sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Chico Moreira comunista?

O comunismo começava a se infiltrar e já havia alguns simpatizantes em Santa Rita que difundiam a ideia de que todos seriam iguais e de que tudo seria dividido em partes idênticas a todos. Chico Moreira, sem dúvida o cidadão mais rico da cidade e das cidades vizinhas, era observado com atenção por essa camada da população que sonhava com a igualdade. Certa feita, atravessando a Rua da Ponte em direção ao Banco Nacional, do qual era presidente e fundador, foi visto por alguns simpatizantes do comunismo que comentavam entre eles: “Quando chegar o comunismo, Chico Moreira vai ficar igualzinho a nós!” Nisso, o outro retrucou: “Mas eu não quero que o Chico fique igual a nós. Eu é que quero ficar igual a ele!” Depois disso, toda aquela ideia de comunismo foi por água abaixo. (Marly Fontes)

Esta Matéria é um oferecimento de:

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

As raízes da família Kallás

Membros da grande família Kallás.
Em busca de paz

Imagine o seu país ocupado por tropas militares de uma nação vizinha e pouco simpática. Pense no sofrimento de uma perseguição religiosa levada a efeito pelos invasores. Calcule o constrangimento de ter de abandonar seu país, mudar-se de continente e, por fim, ser confundido com aqueles que oprimem e espoliam seu povo. Situações como essa parecem impensáveis aos brasileiros do século XXI. Não para os cristãos libaneses que aqui desembarcaram na primeira metade do século passado, deixando para trás a hostilidade dos turcos e muçulmanos.

As colônias libanesas

Santa Rita do Sapucaí acolheu várias famílias oriundas do Líbano: Abdalla, Andare, Andery, Baracat, Kallás, Murad, Nassar, Rezeck e Ruade. O clã dos Kallás é um dos mais presentes na história e nos lares da cidade. O primeiro re-presentante dessa família a pisar o território santarritense foi José Abrahão Kallás que, em 1909, trouxe consigo a esposa Zarife e muita esperança em seus alforjes. Nagib Elias, sobrinho de José Abrahão, chegou à cidade na mesma época. Nos anos que se seguiram, vieram três irmãos do pioneiro (Antônio, Elias e Júlia) com seus cônjuges e filhos.
Raízes de Cedro

O ramo da família Kallás que fixou-se em Santa Rita tem como berço a pequena vila de Fakiha, localizada no fértil Vale do Bekaa, leste do Líbano. No limiar do século XX, a pacata população local se reunia à noite em frente às casas para conversar, cantar e saborear damascos, uvas, nozes e figos. O lugarejo não ficou imune às atrocidades da Primeira Grande Guerra (1914-1918), durante a qual os soldados da Turquia saquearam e mataram centenas de libaneses. Com a derrota dos turcos, o Líbano passou a ser dominado pela França, que concedeu-lhe independência em 1944.
Família se reúne para receber Bispo Dom José Kallás - 1952
O interesse pelo Brasil

De acordo com o médico David Carvalho Kallás, o interesse dos habitantes de Fakiha pelo Brasil teve início em 1876, quando o imperador Pedro II visitou as ruínas de Baalbek, no Vale do Bekaa. A libanesa Salma Aoun Kallás, moradora de Santa Rita desde 1948, conta que o território brasileiro exercia grande atração sobre seus conterrâneos.

Alguns diziam que o ouro brotava do solo na aprazível nação tropical, mas foi preciso muito trabalho para alcançar a riqueza no Brasil. Comerciantes natos, os imigrantes libaneses demonstraram grande habilidade atrás dos balcões santarritenses.
Fakiha, berço da família Kallás.
Outono do Patriarca

O patriarca José Abrahão não demorou a conquistar espaço e respeito, fundando a Casa Kallás em 1913 na praça Santa Rita. Conta-se que a agência do antigo Banco Nacional em Itajubá foi aberta graças a um depósito do comerciante, no valor de 1.500 contos de réis, a pedido do ex-presidente Wenceslau Braz. Em 1917, Nagib Elias inaugurou seu estabelecimento comercial, na rua Silvestre Ferraz, logradouro que receberia muitas outras empresas criadas pela colônia libanesa. Instalaram-se na “rua da Ponte”, por exemplo, os grandes comerciantes Abrahão Elias e Felipe Elias. Outros, como Chafik e Toufik, optaram por fazer negócios na avenida Dr. Delfim Moreira.

Alguns imigrantes da família Kallás recomeçaram sua vida no Sul de Minas atuando como mascates. Foi o caso de José Calixto, cujo sobrenome é uma forma aportuguesada de Kallás. Natural de Baalbek, fugiu da casa dos pais aos 14 anos e escondeu-se no porão de um navio para reencontrar sua irmã Zarife em Santa Rita. Boa prosa e inteligente, fez seu pé-de-meia como vendedor ambulante e conseguiu montar um bar na praça Rui Barbosa, nas proximidades do antigo Clube Santarritense.
Dona Salma e filhos em frente às ruínas de Baalbek
José Calixto almejava levar a filha Maria Rita Calixto de Castro para conhecer Baalbek. Sua morte precoce, aos 44 anos, pôs fim ao sonho. Salma Kallás teve o privilégio de retornar à terra natal e reencontrar seus progenitores, em 1982. Porém, aquela não foi uma viagem tranquila: justamente durante a visita, Salma viu Fakiha sendo bombardeada por israelenses, numa ação militar que teve sete vítimas fatais. O conflito ceifou até mesmo a vida do então presidente libanês, Bashir Gemayel. No ano em que Salma fez sua segunda viagem ao Líbano (2005), foi a vez do primeiro-ministro Rafik Hariri ser assassinado. 

Fincando raízes

Longe dos combates intermináveis do Oriente Médio, a família Kallás encontrou, no Vale do Sapucaí, um solo fértil para a paz e muitas oportunidades, apesar da penosa adaptação ao clima tropical, à língua portuguesa e aos costumes brasileiros. Do clã não saíram apenas homens de negócio, mas também insignes magistrados, médicos e professores. “Os libaneses vieram pensando em voltar, mas gostaram tanto daqui que construíram casas, tiveram filhos e não voltaram mais”, relata Salma Aoun Kallás. “Sofremos muito, mas vencemos”, acrescenta Maria Rita Calixto de Castro.
(Jonas Costa)


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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Mistério na Santa Casa de Misericórdia

Desejo me referir a um fato que se deu no velho Hospital Antônio Moreira da Costa, ainda no casarão da Ladeira do Buracão. Todos os domingos, às três horas da tarde, ia dar a bênção do Santíssimo às irmãs e aos doentes. Era o que podia fazer às freiras e aos enfermos, principalmente quando não tinha um auxiliar.  As irmãzinhas sempre preparavam um suculento café com leite, bolos e outras guloseimas para o seu vigário. Naquele tempo, eu “comia mesmo como um padre”...

Cheguei um pouco atrasado naquele domingo. Tudo porque Marcílio Araújo me prendeu, ainda na praça, falando de teatro amador que ele estava preparando para levar em cena com os Marianos. Achei uma chatice a lenga-lenga do amigo, mas tive que aturá-lo, pois “noblesse oblige”...

Para aquele dia, as irmãzinhas reservavam-me uma naca de bolo de chocolate, visto que, com a minha demora, resolveram distribuir a outra metade com os doentes das enfermarias. Ainda não tinha entrado no hospital e já percebi o reboliço lá dentro. O bolo estava envenenado. Três doentes que o comeram morreram imediatamente.  Outros passaram mal e, lá no terreiro, jaziam os patos e galinhas mortos por terem comido as migalhas atiradas pela janela. Atendi imediatamente aos que passaram mal, dei uma absolvição “sub conditione” aos que tinham morrido e procurei, imediatamente, me inteirar do lamentável fato, desde o seu início.

Conclusão: uma enfermeira leiga que passara pelo Hospital não ficou satisfeita com a superiora que lhe chamara a atenção e a dispensara do serviço. Dias depois, “suadente diabolo”, arquitetou liquidar a superiora. Fez o bolo e mandou uma criança levá-lo, em nome de outra pessoa, como presente às irmãs. Felizmente, a moça da portaria morava no mesmo bairro e conheceu o menino portador do bolo. Amedrontado, o garotinho contou tudo e pudemos então prender a assassina. No inquérito, ela, cinicamente, revelou que não era sua intenção matar o Padre, nem as outras irmãs, mas unicamente a superiora: “Se os doentes morreram ou se o Padre ou as outras irmãs tivessem morrido, seriam inocentes.” A assassina foi presa e levada para Belo Horizonte. Na prisão feminina, aguardou o julgamento. Foi, no entanto, absolvida porque, pelo laudo médico, constatou-se que era um caso psicológico ou de loucura intermitente.

Por tudo o que relatei, mais tarde, procurei o amigo chato e o agradeci sinceramente. Não fosse ele, estaria no cemitério o vigário da cidade no lugar dos pobres doentes da enfermaria, pois seria eu o primeiro (guloso como era) a comer bolo com formicida.

(Texto foi retirado do livro “Trem de Manobra”, escrito pelo Cônego José Augusto de Carvalho)

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Live ETE - Festival de Música da ETE FMC

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Lamartine Babo e a música Ride Palhaço

Em janeiro de 1934, dia 28, estreava no Teatro Carlos Gomes a comédia carnavalesca de Marques Porto e Paulo Orlando, “Ri... de Palhaço”, com Sílvio Caldas cantando a marcha de Lamartine, que dá o título à peça, acompanhado pelo pianista Nonô, tio do cantor Ciro Monteiro. A 8 de novembro de 1933, Maria Reis havia gravado a marchinha que, lançada em janeiro de 1934, foi sucesso estrondoso no carnaval daquele ano.
Segundo relato do cantor Mário Reis, no momento em que ele e Lalá, a bordo do carro de Mário, passavam pela Casa da Moeda, próxima à praça da República, o compositor, contemplando as esculturas dos leões existentes defronte do prédio, cantarolou:

Eu sou o teu leão
trecho que foi substituído por
Eu sou
o teu pierrô
completando-se, em seguida, a letra e música da marchinha famosa.

Apesar da enorme repercussão popular da composição, no concurso realizado pela então Prefeitura do Distrito Federal, a música de Lamartine saiu derrotada pelo “Tipo7”, marcha de Nassara e Alberto Ribeiro, inspirada no mercado de café e, mais uma vez, de exaltação à mulher. Francisco Alves foi intérprete do “Tipo7”.

Os concursos de músicas carnavalescas eram sempre muito disputados e usavam-se inúmeras artimanhas para vencê-los. Mas, os compositores ambicionavam antes o prestígio popular do que o prêmio em si, insignificante e, na verdade, não tinham por objetivo prejudicar o colega e, sim, tornarem-se famosos. A “Briga” apresentava-se saudável e criativa. Nesse ambiente, decorreu o episódio de desclassificação da marcha “Maria Rosa “de Nassara, tida pelo juri como plágio de um trecho da opereta Rose Marie.

Imediatamente, Nassara, temeroso do prestígio popular crescente da música Ride Palhaço, tentou sua interdição junto aos jurados, sob a alegação de que a marcha era também um plágio. Atendido Nassara, saiu desclassificada a marcha de Lamartine Babo, tornando-se vitorioso o “Tipo 7”.

No momento em que os jurados proclamavam a vencedora, presente Chico Alves, o grande ídolo popular, com duas bandas tocando o “Tipo 7”, o povo que superlotava o campo do Vasco, em São Januário, entoava uma paródia de Ride Palhaço: “Um, dois, três, quatro, cinco, seis palhaços / mais um pierrô / uma colombina / e o Lamartine Babo / na esquina / agora, agora / outra vez!”Ato contínuo, carregando Lamartine nos braços, com lenços brancos nas mãos, a multidão cantava em delírio:

Ride Palhaço
(gargalhadas)
Eu sou
o teu pierrô
Colombina...
Colombina...
Reparte esse amor
metade pra mim
metade pra teu arlequim


A popularidade da marcha de Lalá era realmente tão grande que se podia ouvir pelas ruas da cidade o estri-brilho da música, cantado sob a forma de paródia gaiata, anunciando um analgésico muito conhecido na época: Untissal:

Ri... de palhaço
passa Untisal no braço
mas se a dor for profunda
passa Untisal na bunda

Durante muito tempo correra a notícia de que Lamartine estaria magoado com Nassara pelo que acontecera. Preocupado, tempos depois, Nassara fez o estribilho:

Cadência...
Nós cantamos com cadência
esta marcha triunfal!
Cadência dois a dois de braço dado
parecendo que é casal...
Eu não sei lá se é...
paz e harmonia!
Muita cadência, olé!!!
fazendo marcação com pé...


Ao terminar a letra, levou-a a Lamartine para que ele completasse a composição. Prontamente, Lalá botou a segunda parte:

Você vai na frente
de chapéu na mão
Eu fico por trás
aguentando o cordão!
Vão no meio os outros casais:
morenos e morenas divinais!


e fez a introdução, nascendo assim, “Cadência”, marcha lançada pela dupla, para o carnaval de 1936, gravada por Chico Alves. Como já acontecera antes com Linda Morena, a marcha Ride Palhaço foi sucesso até em Portugal, segundo notícia do Diário da Noite, de 3 de janeiro de 1935. Vinte e cinco anos depois de lançada a composição, em 1959, Lamartine, há muito tempo afastado da festa que tanto amou e engrandeceu, foi passar o carnaval na cidade mineira de Santa Rita do Sapucaí, onde recebeu grandes homenagens do Ride Clube, que mantinha o bloco carnavalesco Ride Palahaço, fundado em 1934, ano de lançamento da marcha. 

(Trecho da obra “Tra-la-lá” de Suetônio Soares Valença)

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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Nossas viagens a Santa Rita do Sapucaí

Nasci em Santa Rita do Sapucaí, cidade no sul de Minas, terceira filha do casal Quinzote e Glorinha. Pelo que ouço dos mais velhos, minha mãe teve um problema sério no ouvido quando estava grávida de mim. Na época, não existiam antibióticos e parece que minha mãe padecia com muitas dores. Meu pai, médico, achava que ela só deveria ser o-perada depois do parto.

Assim que nasci, fui com meus irmãos para a casa da minha avó materna. Meus pais seguiram para o Rio de Janeiro, cidade com mais recursos médicos e por lá permaneceram 8 meses. Durante esse tempo, fui amamentada por uma moça, Rita, que tinha tido um filho, menino, e amamentava a nós dois. Com toda certeza, não me lembro da estada na casa da minha avó, mas, pela importância que elas tiveram por toda a nossa infância, imagino como devo ter sido bem tratada por ela e pelas irmãs da minha mãe, na época ainda solteiras. No Rio, apareceu para o meu pai a oportunidade de um emprego. Daí a nossa mudança para lá, logo que minha mãe se recuperou das operações a que se submeteu. 

Guardo lembranças vívidas e carinhosas da minha avó, mãe da minha mãe, por todos chamada “Dona Maricotinha”, em cuja casa, em Santa Rita, passávamos as nossas férias. Ela sempre atuante, alegre, cheia de projetos. Todos os anos, para viajar do Rio de Janeiro a Santa Rita, íamos de bonde até a estação da Central, tomávamos o trem que nos levaria a Cruzeiro e fazíamos a baldeação. A viagem era longa e cansativa, os bancos estreitos, sem conforto algum, mas era para nós uma grande alegria, não só pela novidade, como pela perspectiva feliz de férias na casa da avó.

Mamãe nos preparava e dava a cada criança a incumbência de vigiar uma das malas. A chegada a Cruzeiro era outra aventura. Tínhamos que descer de um trem e entrar rapidamente no outro, da RMV (Rede Mineira de Viação). Recordo-me de que, algumas vezes, fui colocada pela janela para guardar os lugares nos bancos. Depois de todos sentados, lugares garantidos, tínhamos por prêmio pastéis que os vendedores apregoavam na plataforma. Acho que minha paixão por pastéis data dessa época. Esse gosto me segue até os dias de hoje, assim como o carinho que tenho por trens, de cujos apitos lamentosos me recordo com ternura.

Minha avó sempre foi muito vaidosa e não poupava dinheiro para que as filhas se apresentassem bem. Era, para mim, um prazer abrir o armário de minhas tias, as “meninas”, como eram chamadas. Vestidos luxuosos, muitos vindos do Rio e até do exterior.

Soube, mais tarde, por tia Mariquinha, irmã da minha avó que, quando minha mãe era solteira e foi eleita rainha dos estudantes, minha avó encomendou um vestido no Rio para a festa de coroação. O vestido não podia amassar e viria de trem. Minha avó comprou dois bilhetes, um para o portador e outro para o vestido, que ocupou todo o banco.
Noite de Coroação da Rainha do Clube Santarritense em 1930. Interior do antigo prédio do Clube Santarritense (demolido).
Meu avô morreu com trinta e seis anos, deixando Dona Maricotinha com cinco crianças. A mais velha, minha mãe, com 9 anos e a caçula com apenas alguns meses. Pelo que sei, meu avô foi uma pessoa dinâmica. Era seu o primeiro carro a chegar em Santa Rita e foi ele quem trouxe o primeiro cinema para a cidade. Pedro era o seu nome e mamãe sempre se referiu a ele com orgulho e muito amor. Penso que ela era a única filha a se lembrar dele, por ser a mais velha.

A renda do cinema aliviava o orçamento apertado da minha avó. Dizia-se na cidade que quando se aproximavam as festas em que as filhas tinham que se apresentar com vestidos novos, minha avó mandava vir filmes de Tarzan para que as noites tivessem lotação esgotada.

Embora fôssemos felizes em nossa vida no Rio de Janeiro, era em Santa Rita que desfrutávamos de liberdade, de passeios e do carinho dos familiares. No Rio, nossa vida era voltada para o colégio e nosso lazer maior era, uma vez por semana, aos domingos, ir ao cinema “O Americano”, que acabou se transformando no “Copacabana”, atualmente academia de ginástica.

Não era nada explicito mas, subliminarmente, recebíamos a mensagem de que não devíamos conviver muito com os “cariocas”. Eles eram diferentes de nós, os “mineiros”. No colégio, frequentemente, recebíamos convites para os aniversários das coleguinhas. Como nunca éramos levadas para tais festas, eu nem mais entregava os convites para a minha mãe.

( Por Marly Barbosa Fontes)

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Palestra com Jonas Costa


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O grande empreendedor Marcos Goulart Vilela relembra sua vocação pela tecnologia

Como surgiu seu primeiro impulso para trabalhar com tecnologia?

Quando era criança, eu gostava de ouvir som mais alto, como todo mundo na minha idade. O que tinha em casa era um rádio velho em que me deixavam mexer e eu montava barriquinhas para colocar altofalante. Levava aquilo de um lado para o outro da cidade e muita gente falava: “Como ele gosta de eletrônica! Esse vai estudar na ETE!” Essas coisas, com certeza, vão induzindo a gente a achar que tem jeito pra isso mesmo.

Você estudava eletricidade na infância?

Antes de fazer eletrônica, eu fiz um curso de reparador de eletrodomésticos. Naquela época, você ia lá nos Vicentinos e eles o ensinavam a consertar liquidificador e outros aparelhos. Quando terminei o curso, uma professora que eu tinha, Dona Zininha, ficou sabendo da história e me deu um liquidificador para consertar. O problema era que a gente tinha aprendido a mexer na parte elétrica do aparelho e no caso dela era defeito no copo, que vazava. Quando eu mandei de volta o aparelho, ela ficou completamente frustrada porque eu disse que teria de trocar o copo! (Risos)

Como foi sua entrada na ETE?

Depois dessas experiências, veio a vontade de estudar eletrônica. Embora eu tenha sido péssimo jogador, adorava jogar futebol. Na infância, eu passava muito tempo no campinho, mas estudava muito pouco. Quando eu entrei na ETE, logo no segundo mês, eu descobri que, se não estudasse muito, estaria ferrado. O curso era muito pu-xado e tive que aprender a estudar pra valer. Lá eu aprendi a levar meu estudo muito a sério.

No ínício dos estudos na ETE, em 1968, ela estava acabando de ser construída. Naquela época, as quadras e a piscina estavam em plena construção e o nosso professor de educação física, o Rocha, nos dava como exercício ficar socando o piso para terminar a qua-dra! (Risos) A gente pegava soquetes e ficava batendo!

E após a sua formatura?

Quando me formei em eletrônica, fiz estágio no INPE e voltei para estudar no Inatel. No período de faculdade, trabalhei na ETE. Depois, fui para São Paulo e fiquei 8 anos fora. Na empresa em que trabalhava, fui responsável pela filial em Florianópolis, por dois anos. Por um período, como o meu pai e meu irmão tinham supermercado, o meu projeto era montar um igual em Itajubá. Eu até cheguei a estudar para fazer isso. Ao retornar a São Paulo, o Dílson (atual sócio), que havia feito ETE e Inatel comigo, tinha aberto uma sociedade por lá. Em uma de nossas conversas, veio a ideia de voltar para Santa Rita. Foi aí que surgiu a Leucotron.

Como foi no início?

Em sua primeira empresa o Dílson produzia produtos para oftalmologia e a nossa opção foi fabricar produtos de laboratório (Leucotron é o nome do primeiro produto – um contador de leucócitos). Logo no início, nós combinamos que o Dilson seria responsável pela parte técnica e eu cuidaria do setor de vendas, contabilidade e dos assuntos mais administrativos. Essa foi uma das coisas mais acertadas que nós fizemos em nossa sociedade porque o grande problema que acontece quando dois ou três amigos decidem abrir uma empresa é que todos são técnicos e ninguém quer tocar as outras áreas.

Quem foram os primeiros funcionários?

Logo no início, nós contratamos três pessoas. Uma delas é a Ângela, que até hoje trabalha conosco. Hoje ela é responsável pela área financeira. No início, era secretária e montadora. O Rogerinho Cabeleireiro e o Toninho Tibães foram os outros dois que trabalharam por muitos anos conosco. Com esses três colaboradores nós começamos a Leucotron.

Vocês passaram dificuldades no início?

Bem no início da empresa, fomos participar de um congresso lá em Brasília e tivemos que comprar um estande. O Dílson então ligou para um amigo dele e perguntou se ele não cederia a metade do espaço dele para nós montarmos o nosso. Ficamos com um estande de 1 metro de frente e 3 de lado. Como não dava para ficar o Dílson e eu dentro do cubículo, enquanto ele demonstrava o equipamento, eu ficava lá fora cercando quem passava. A gente parava todo mundo e apresentava o produto. No final das contas, os médicos presentes ficavam até com pena da gente, por conta de nossa estrutura precária. Apesar dos tempos serem difíceis, no primeiro dia nós vendemos alguns equipamentos e, no segundo, o pessoal passava por lá e perguntava como estávamos indo. Quando percebemos que aquilo estava gerando interesse, compramos uma cartolina e fizemos um placar de vendas. Aquilo chamou a atenção de muita gente e nós vendemos bastante. No último dia, todo mundo já tinha ido embora e só sobramos nós dois.

Como foi a visita do Ministro Rezeck à Leucotron?

Num sábado, o Marcelo, gerente do Banco do Brasil, chegou de manhã na Leucotron, quando ainda era um fundinho de quintal, acompanhado do Ministro Rezeck. No decorrer da apresentação, o Marcelo virou para o Dílson e falou:
-Tem que caprichar mais! Não é todo dia que vocês recebem a visita de um ministro!
E o Dílson disse:
- Mas quem é Ministro?
Então contamos para ele de quem se tratava o visitante e o Dílson falou:
- Vamos começar tudo de novo! Ministro, por favor, me acompanhe!
O Dílson o levou lá fora, fechou a porta, pediu para ele bater de novo e, quando atendeu, gritou:
- Ministro Rezeck! Que honra ter o senhor por aqui! Seja bem-vindo!

E a história do Okbarfest?

Em 1991, eu fui festeiro na Festa de Santa Rita e o Rogério teve a ideia de montar um bar para levantar dinheiro. Como estava na moda a Oktoberfest, o nosso barzinho chamou “Okbarfest”. No primeiro dia, o movimento foi impressionante. Lá pelas tantas, soubemos que dois estudantes do Inatel estavam dizendo que tinham perdido a comanda e queriam dar o cano. Eu fui lá conversar com eles, disse que teriam que pagar um valor estipulado no caso da perda das comandas e eles disseram que não tinham dinheiro. Então eu pedi que deixassem um documento e que voltassem no outro dia para pagar. Eles perguntaram:
- E se a gente não quiser pagar?
E eu respondi:
- Vai ficar desagradável porque está todo mundo comentando que são dois alunos do Inatel que estão dando problema. Isso deprecia o próprio Inatel...
Daí um deles retrucou:
- E por que você está tão preocupado se vamos depreciar o Inatel ou não?
E eu falei;
- Porque eu estudei lá!
Aí um deles falou:
- Mas você não se formou, né?
Quando eu respondi que era formado lá o outro virou pra gente e falou:
- Acho melhor a gente pagar. Coitado! Se esse cara formou no Inatel e até hoje está trabalhando de balconista de bar é porque a coisa está feia mesmo!

No início, era complicado manter uma empresa na cidade?

No começo era muito difícil. Tudo o que você precisava fazer tinha que trazer de São Paulo. Tivemos até que criar uma área de mecânica dentro da Leucotron para montar as caixas. Mais tarde, quando veio a abertura de mercado e as importações achamos mais viável tirar a mecânica daqui e prestar serviços para outras empresas. Foi nessa época que soubemos que o Custódio era sócio de uma empresa de Itajubá e estava saindo de lá. Nós então tivemos a ideia de chamá-lo para ser nosso sócio. Ele teria uma determinada participação na empresa e sua parte poderia ser paga à medida em que a firma lucrasse. Foi aí que surgiu a Prodmec. Depois de alguns anos, nós percebemos que a empresa tomou vida própria, havíamos nos tornado apenas sócios capitalistas e decidimos vender nossa parte. Nós então combinamos uma forma que desse para eles pagarem em 6 ou 7 anos e, felizmente, a Prodmec continuou crescendo e está super bem.

A Enterplak também surgiu da Leucotron?

Com a Enterplak foi a mesma coisa. O José Carlos era nosso gerente de produção. Ele já tinha vontade de ter seu próprio negócio e o que nós fizemos foi transferir para ele nossa estrutura de produção. Toda a parte de solda, bancada e equipamentos nós passamos para ele e isso tudo foi pago depois com serviços.

A Leucotron presta serviços às entidades de Santa Rita?

Lá no começo, a prefeitura nos doou este terreno. Desde então, nós decidimos que retribuiríamos à sociedade santarritense colocando nossos produtos a serviço das entidades. Passamos a instalar nossos equipamentos em diversos locais como prefeitura, hospital, Asilo, APAE, delegacia e escolas. Quando os equipamentos ficam velhos, são trocados e nós prestamos assistência, como forma de desempe-nhar um papel social.

Por que em Santa Rita existem duas associações?

Tenho uma história que quase ninguém sabe. Nós começamos a Leucotron em 1983. Naquela época, só havia a Linear, depois chegaram a Intraco, a Fini, além da Real e da Estamparia Santarritense. O Carlos Bruno era um dos administradores da Real e convidou todo mundo para se reunir, uma vez por mês, para almoçar. Nesses encontros, participavam umas oito empresas e ali surgiu a ideia de se criar uma associação. A primeira coisa que fizemos foi procurar a associação comercial e industrial, que já existia, mas que andava meio inativa. Nós procuramos o presidente para criar um departamento de indústria. O que ele disse foi que a associação já estava estruturada para atender ao comércio e que eles poderiam mudar o estatuto para que não recebessem indústrias. Desde então, surgiram duas associações, o que é muito raro de acontecer. Muita gente pensa que isso foi iniciativa das empresas, mas não.

Esta matéria é um oferecimento de:

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Empório de Notícias 45 - 10 de Agosto - Nas bancas!

Nesta edição do Empório de Notícias:

- Lafaiete Paduan e sua paixão pelo Lendário FORD T.
- A tajetória do Artista e Empreendedor Pedro Carletti
- As histórias e experiências de Dona Edméa Carvalho que não estão em seus livros.
- Os santarritenses que estiveram com Amy Winewhouse
- Conheça a história do famoso farmacêutico Astolfo Lemos Carneiro
- Da obra de Jonas Costa, saiba como era Santa Rita na juventude de Maria Bonita.
- Saiba por onde anda os criadores do Bar Buffonete
- Pai é paia e mãe é manha: mais um excelente texto de Ivon Luiz Pinto.


Mais uma edição imperdível! (Esta edição chega às bancas no finalzinho da tarde.)

Samuelzinho e o incrível 13 de Maio Futebol Clube

 Quem conheceu Benedito Samuel dos Santos, o popular “Samuerzinho”, ainda relembra com saudade dos tempos em que o baixinho de costas arqueadas era o síndico da Rua Nova. Com uma malemolência de fazer inveja aos mais lendários malandros dos morros cariocas e com a energia de 10 índios sete-flechas que mal cabiam em seu corpo de um metro e meio, Samuelzinho ensinou sua gente a sonhar.
Uma das poucas fotografias de Samuelzinho.
Durante sua curta existência, muitos foram os projetos que marcaram a história da comunidade negra santarritense. Fundador da Escola de Samba Sol Nascente, diretor do Treze de Maio - por muitos anos - e comissário número 1 do jogo de bicho nas redondezas, o rapaz era o corisco em pessoa.

Para Samuel, não tinha tempo ruim. Seu negócio era fazer barulho. Todo ano, organizava Festas juninas, campeonatos de várzea, Desfiles de carnaval e Bailes na Associação José do Patrocínio, para se divertir com os amigos. Onde tinha movimento, lá estava ele com seus passos curtos e sorriso comprido. 

O sonho

Apesar dessa energia toda, Samuelzinho precisava realizar um grande sonho antes de passar desta para melhor: levantar o caneco com o Treze de maio. Ele já estava com o saco cheio de ver seu time desclassificado, mas dessa vez tinha uma ideia: convencer seu grande amigo, Luiz Carlos, a voltar aos gramados. Em consideração a ele, o goleiro, que já estava há muitos anos longe do futebol, aceitou o desafio e contratou o famoso preparador físico - Barbosa - para deixá-lo tinindo no momento em que o juiz desse o apito inicial.

Quando saiu a notícia de que o velho Treze estaria vindo com força total, o popular Baracat procurou imediatamente Samuelzinho para oferecer patrocínio e apoio moral. Com a grana, o time comprou um jogo de camisas, bolas novas e algumas geladas para aliviar a pressão antes e depois da partida.

Com o time já pronto, o campeonato de 1985 teve início. A cada jogo, um novo espetáculo era proporcionado pelo grande clube formado por craques como Jair (Djalminha, fui!), José Hamilton (Mito), Nenem Justino, Macarronê, Nanico, Hermínio, Paulo da Pinta e muitos outros.

Embora o Treze estivesse bem na tabela, em algumas ocasiões Samuelzinho perdia a linha com carretel e tudo. O baixinho não conseguia manter a calma quando via seus jogadores entortando o caneco no Baile “das Cravinas”, em véspera de jogo duro. Certa vez, o treinador reuniu o grupo no vestiário e desabafou: “Esse time tinha que chamar Madrugada Futebol Clube! Véspera de jogo e todo mundo na gandaia!” Diante daquelas verdades ditas pelo rapaz, os jogadores não conseguiram conter o riso. Ainda assim, com ressaca e tudo, o Treze atropelou o adversário e se aproximou ainda mais do grande objetivo.

Depois de cumprir tabela invicto durante todo o campeonato, o incrível Treze de Maio acabou chegando à primeira final em sua longa carreira. O rival seria o temido Industrial Futebol Clube que, há muito tempo, não sabia o que era perder um título.

Para garantir a vitória, Samuelzinho recorreu a tudo que era Santo. A primeira estratégia foi pedir ao famoso “Picareta” que fizesse uma mandinga. Após embolsar o dinheiro, o fogueteiro oficial de Santa Rita garantiu: “Com essa simpatia seu time tem 50% de chance de vencer!” Ao ouvir os prognósticos, Samuelzinho pegou a grana de volta e saiu de lá indignado. A próxima estratégia foi levar uma benzedeira ao campo para “fechar o gol”. Não satisfeito, pediu a um ex-padre que benzesse a bola e foi a Pouso Alegre fazer uma macumba contra o técnico do time adversário. Aleluia, treinador do industrial, acabou sabendo que o seu time havia sido “amarrado” em um terreiro e também correu a Pouso Alegre para reverter a magia. Ao chegar lá, entretanto, ouviu a notícia desanimadora da macumbeira: “Agora já era. Seu nome tá na boca do sapo.”
O invencível Treze de Maio.
A grande final

No domingo, o Estádio Erasmo Cabral estava abarrotado de torcedores. Confiante de que seu time seria campeão, Samuel pediu à “Maria Bonita” que entregasse um troféu para o goleiro Luiz Carlos, antes mesmo do jogo começar. Com tanta fé e mau-olhado, o resultado não poderia ser outro: 1x0 para o Treze.

Um time vencedor

Depois da conquista, o time de Samuelzinho continuou acumulando vitórias. Nessa altura do campeonato, o treinador já tinha contratado até uma banda de música, comandada pelo maestro Tonico. Nos 4 anos seguintes, o Treze conquistou todos os canecos que viu pela frente e excursionou pelas várzeas mais afamadas da zona rural. Em um desses amistosos valendo uma cervejinha depois do jogo, Samuelzinho, que tinha levado 15 jogadores, falou: “Vamos entrar com os 15 que esse povo não sabe contar!” Não deu outra. O time adversário, dirigido pelo famoso “Cido Discoteca”, tomou uma sacolada inesquecível de 5 gols a 1.

Samuel e a Política

Em 1988, o popular treinador decidiu entrar para a vida pública para que pudesse encontrar novas maneiras de movimentar o bairro. Apoiado por alguns amigos, Samuel apostou no slogan “Não vote em branco, vote em Samuér.”, mas a campanha acabou não dando resultado. Muitos moradores da Rua Nova não deram o apoio ao rapaz que tanto fez pela comunidade e seu desgosto foi imenso. Depois disso, Samuelzinho parou com tudo. Não quis mais saber de bola, deixou de lado a Escola de Samba Sol Nascente e acabou falecendo, alguns meses depois, cercado pelos companheiros. O reconhecimento após a sua morte, veio quando a pracinha do bairro recebeu seu nome e quando o Sol Nascente fez um enredo em sua homenagem.

Saudade

Hoje, quem sobe o morro da Rua Nova ainda se lembra daqueles tempos em que a comunidade ria, cantava, encantava e se divertia com a estripolias daquele fantástico rapaz de costas envergadas. A lenda se foi. Ficaram as histórias que agora escrevo para que não se percam nas curvas do tempo.

(Carlos Magno Romero Carneiro)

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O fim de um incrível mistério

Dentre as diversas engenhocas em exposição no Museu da ETE FMC, uma delas foi apresentada como “a primeira televisão em cores da cidade”, mas ninguém tinha ideia de onde ela havia surgido. Até então, mesmo com as intrincadas pesquisas sobre as características do aparelho e de seu inestimável valor histórico, não havia um único cristão que soubesse dizer quem havia comprado aquela verdadeira maravilha do mundo moderno.

Neste mês, recebemos uma mensagem do amigo David Kallás que pôs fim a esse mistério que tirava o sono de milhões de santarritenses, sedentos por aquela preciosa informação. 

Ele nos contou que o televisor foi comprado no ano de 1972 pela senhora Nabirrha Murad Kallás, na Casa Jandari, de propriedade de Jorge Anderi. Em uma fotografia da época, captada com uma Polaroid Colorpac 80 comprada na Argentina, Cristina Kallás e Maria (irmã de um atual funcionário da prefeitura chamado José Pedro) posam ao lado daquela extraordinária invenção valvulada. Com essa gloriosa inovação tecnológica, nunca mais a estimada família Kallás precisou colocar papel celofane na tela do televisor para ver colorido. Bastava esperar o aparelho esquentar 5 ou 6 minutos para que a imagem ficasse um verdadeiro cinema!

Por volta de 1980, ao adquirir um novo televisor equipado com um prático controle remoto com fio, dona Nabirrha presenteou o Senhor Narra Reseck com o antigo aparelho que passou a decorar sua sala e abrilhantar ainda mais o horário nobre. Hoje, os fanáticos pelas tecnologias do passado ainda podem se encantar com a qualidade impressionante desse poderoso aparelho recoberto com madeira de lei. Basta visitar a “Mostra dos 50 anos”, nas dependências da ETE, e retornar a uma era em que Cid Moreira era loiro e Ronye Von “o príncipe da Jovem Guarda”.

Esta matéria é um oferecimento de:

Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial repudia declaração do Vereador Clarismon Inácio

Quer saber mais sobre essa notícia? Acesse o Site da Difusora AM

Musical produzido pela ETE FMC contará história da Companhia de Jesus

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Linguiça, um detento danadinho

Sexta-feira, dia 20, a cadeia pública de Santa Rita do Sapucaí esteve completamente tumultuada em virtude do comportamento desastroso do sentenciado “linguiça”. Após depredar as janelas de madeira, o meliante armou-se com umas das travessas das mesmas e passou a desacatar a tudo e a todos. Não satisfeito, o elemento conseguiu amontoar algumas folhas de jornal e também sua camisa, ateando fogo nas mesmas. Vestido apenas de calção, linguiça tinha plena liberdade de movimentos e passou a destruir diversos utensílios ali encontrados. Nem sua cama escapou de suas garras. Em determinado momento, o delegado Mauro Nogueira determinou sua remoção para a cadeia de Pouso Alegre, temendo que o meliante derrubasse o xilindró. Ao tentarem abrir as grades para dominá-lo, os policiais verificaram que Linguiça havia colocado um prego na fechadura, dificultando a execução dos trabalhos. Contudo, os soldados arrombaram a cela e aguardaram o momento propício da agarrá-lo. Em dado momento, o presidiário, já mais calmo, mas ainda armado com um aparelho de barbear, resolveu vestir a calça. Quando Linguiça introduziu a primeira perna, foi o momento dos guardas pegarem o meliante com a calça na mão. Repentinamente, a porta foi aberta e o cabo penetrou na cela, atracando-se corporalmente com o detento para, em seguida, dominá-lo.  Linguiça foi então removido para Pouso Alegre, mas precisou voltar algumas horas depois, por não haver “vaga” na cadeia de lá. Aos soldados e, em especial, ao cabo Otávio, os parabéns desse jornal.

(Jornal O Correio de Santa Rita do Sapucaí –  6 de julho de 1969)

Trechos de “Engraçadinha - Seus amores e seus pecados” Nelson Rodrigues


Não se sabia ao certo, na família, a idade de tia Ceci. Talvez uns oitenta, setenta e oito. Naquela noite, antes de dormir, tomara o seu banho de assento. E, depois, derramara talco em si mesma. Enfim, cheirosa como um bebê, vestiu-se. Há muito tempo deixara de ter seio. Ao sair do banheiro, veio para o quarto, caminhando pelo corredor, no seu passinho imperceptível — era tão leve e pequenina de uma fragilidade desesperadora — ela pensava na própria morte. Queria para si um enterro como o de Delfim Moreira, puxado por cavalos brancos e de penacho. Sim, antigamente os enterros eram mais bonitos. "Assassinaram o Pinheiro Machado", pensou.

Tia Ceci entrou no quarto. Preparou-se para dormir. Nas últimas noites, dera para sonhar com o Delfim Moreira. Era um velho bonito (aliás, um presidente sempre é bonito). Ela fora ao Rio e vira o Delfim Moreira. Tirara a cartola para ouvir o Hino Nacional. Quando ele passou, na carruagem, ela, tia Ceci, pôs-se na ponta dos pés; gritou, esganiçadamente: — "Viva o Doutor Delfim Moreira!" Da carruagem, o Presidente sorria, fazendo um aceno — e tinha qualquer coisa de chinês na fisionomia. Delfim Moreira tinha um sorriso bom. Sim, sorria como se fosse um tio, um pai de todo o mundo. Por vezes, ela achava que o Nosso Senhor devia ter a cara de Delfim Moreira. (capítulo XXIII)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Quando um siberiano incendiou Santa Rita do Sapucaí

A vinda

Nascido na gelada Sibéria, no dia 10 de agosto de 1876, Jacques Bressler veio para a américa do sul, ainda criança, fugindo de uma guerra civil.  Após um longo tempo de viagem, o garoto e sua família passaram a residir na Argentina, onde trabalharam como agricultores. Desde cedo, seu pai, Marcos Bressler, o ensinou a manejar o arado que castigava impiedosamente suas pequenas mãos. Aos 14 anos, o menino não suportava mais o trabalho semiescravo que desempenhava e decidiu fugir de casa. Acabou escondido em um navio cargueiro, chegando de forma clandestina ao porto de Santos. O rapaz ainda não dominava o português. Não sabia ler e nem escrever. Para não morrer de fome, teve que cair no mundo e se alfabetizar sozinho, vivendo dias de muita dificuldade. Desde então, o siberiano passou a trabalhar como viajante e como agente de jogos e se mudou para Varginha. Foi nessa época que acabou ficando noivo e, de casamento marcado, resolveu trazer sua futura mulher para uma viagem que faria a Santa Rita.
 
História de cinema

Ao chegar, Bressler deixou suas malas no hotel e foi até o cinema assistir a um filme. Naquela época, o antigo Cine Theatro Santa Rita possuía dois andares. No térreo ficava a "geral" e, no piso superior, os camarotes. O viajante optou pela área reservada e, lá de cima, teve uma visão que mudaria a sua vida para sempre. Havia entre os expectadores do primeiro pavimento uma jovem que o deixou completamente apaixonado. Desde então, ele não conseguiu tirar os olhos dela. Ao chegar ao Hotel Mello, Bressler não teve outra alternativa: desmanchou o noivado imediatamente e avisou o dono do estabelecimento que estava se mudando definitivamente para Santa Rita. A moça que passou a fazer parte de seus sonhos chamava-se Antonietta Bruzamolin - uma filha de imigrantes italianos que, como ele, haviam deixado sua terra natal em busca de dias melhores no novo continente.

Na semana em que se instalou em Santa Rita, Bressler tratou de expor suas intenções aos pais de seu novo amor. Para seu desapontamento, José Bruzamolin e Olívia foram contra a união de Antonietta com o desconhecido. No entanto, o rapaz não desistiu de seu intento. Alguns dias depois, Bressler acabou adoentado, vítima de uma gripe mal curada. Entregue no leito do Hotel, o rapaz disse ao doutor Antenor que pedisse a Antonietta que o procurasse. Era seu grande desejo vê-la antes de morrer. Ao receber a notícia, a moça resolveu fazer o gosto do siberiano. Desde então, o amor do viajante passou a ser correspondido por aquela que, dentro de poucos meses, viria a ser a sua esposa, mesmo sem o consentimento dos pais. Da união, nasceu a única filha do casal, Maria Nazaré Bressler. Com sua família estabelecida na cidade, o rapaz encontraria em Santa Rita um lugar em que se tornaria amado

Talvez pelas dificuldades que encontrou desde o nascimento, Bressler sempre gostou de viver a vida com intensidade. O fato de ter passado muitos anos solitário, fez dele um homem sedento por novas amizades e sua intenção era sempre levar alegria por onde passava. Por conta disso, todos os movimentos sociais que aconteceram na cidade, desde então, passaram a contar com a sua colaboração e empenho. Jacques era apaixonado por grandes eventos. Essa característica peculiar fez dele uma espécie de referencial para tudo o que acontecia por aqui.
 
Os clubes
 
No decorrer da vida, Jacques Bressler foi presidente dos principais clubes e associações de Santa Rita. Esteve presente na diretoria do Clube Santarritense, do Centro Operário e da Associação José do Patrocínio. Maria Bonita, grande líder do movimento negro no Século XX, tinha um enorme apreço pelo Siberiano e, sempre que precisava de apoio em alguma de suas empreitadas, recorria a ele para conseguir amparo ou patrocínio.

O futebol 
 
Como ninguém é perfeito, Bressler era um flamenguista doente. Em seu quarto, tudo era ornamentado com o brasão do clube de regatas. Sua fixação era impressionante. A almofada em que sentava tinha que ser vermelha e preta, ele só bebia em uma caneca flamenguista e até chegou a criar um time local chamado Flamengo para homenagear o clube carioca.  Apesar de todas as demonstrações de apreço pelo Mengão, certa vez ele se superou ao trazer o time titular para jogar em Santa Rita. Para dar o chute inicial, convidou Sinhá Moreira que também era muito sua amiga e que sempre o apoiava na promoção dos eventos.
Carnaval

Se o carnaval pode ser considerado o símbolo máximo de nossa expressão cultural, Bressler não poderia ficar de fora. Ao lado de seu grande amigo, Antônio Junqueira, o viajante ajudou por muitos anos a colocar o Democráticos na rua. Mal chegava fevereiro, o rapaz já pegava no batente e colaborava como podia para ver seu bloco brilhar.
A.S.A.

Dentre todos os projetos que tiveram a participação dessa grande figura, talvez sua maior colaboração tenha sido na criação da A.S.A., a Associação Santarritense de Atletismo. Nos anos em que a agremiação esteve na ativa, inúmeros foram os prêmios conquistados por nossa cidade. Desde então, Santa Rita passou a ser considerada como uma potência esportiva. Na região, não havia um único time que desbancasse aquele poderoso grupo local que chegou a conquistar o vice-campeonato estadual de vôlei feminino.

Bon vivant

Sim! Jacques Bressler era mesmo um bom vivant, isso é inegável. No entanto, sua sede de vida fez dele uma das criaturas mais importantes de nossa cidade em todos os tempos. Somente quem conviveu com ele, para saber o quanto sua alma era boa e caridosa. Para ressaltar seus inúmeros exemplos de entrega ao próximo, em um tempo em que, reza a lenda, os sinos da igreja batiam - mais ou menos - de acordo com a importância do finado, Bressler chegou a patrocinar uma tarde de sinos para um amigo morto a fim de realizar o seu inusitado "último pedido". Na verdade, sua intenção era mostrar que não existem diferenças entre as pessoas. Para ele, na cidade que o acolheu como filho, todos eram seus irmãos e mereciam a mais profunda consideração.
A despedida
Se Bressler espalhou alegria por tantas décadas, tão profunda foi a tristeza no dia 4 de abril de 1980 quando, aos 84 anos, partia este ser tão ilustre e benquisto. Naquela tarde, a cidade ficava órfã de um homem que a amou demais. Hoje, ao relembrarmos sua trajetória, a saudade bate à porta e sentimos a falta desta criatura tão intensa que movimentava como ninguém a pacata Santa Rita. Bressler se foi, mas aprendemos com ele que a vida é curta demais para ser pequena.

Por Carlos Magno Romero Carneiro
(Texto baseado nos depoimentos de Antonietta Bruzamolin, neta de Jacques Bressler)

Uma viagem no tempo por 36 Reais

No dia 16 de julho, encontramos no site “Rio Postal”, especializado na venda de cartões, uma preciosidade. Trata-se de uma fotografia da cidade até então desconhecida por nós. A imagem capta o início da rua da pedra, com a igreja matriz e o seminário ao fundo. Pela imagem é possível constatar que grande parte do centro da cidade ainda não havia sido ocupado pelas dezenas de casas que, mais tarde, seriam construídas em toda a sua extensão. Outro detalhe interessante é a presença dos carros de boi que cortavam a Avenida Delfim Moreira com seus sons melancólicos e seguiam para a zona rural. A casa de Adélia Duarte, cuja história foi contada nesta edição, também pode ser vista na fotografia que chegou sem qualquer referência de data ou dedicatória. Ao examinarmos com atenção a imagem comprada por 36 Reais e que estava perdida em algum sebo carioca, fizemos uma viagem no tempo. Voltamos a uma época em que “Santa Rita do Sapucahy” ainda engatinhava, sem imaginar o que viria a se tornar, décadas depois.

Esta matéria é um oferecimento de:

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Aqui viveu Adélia Duarte

 
Filha de João Rodrigues e Lina Cleto Duarte, Adélia Duarte nasceu em Bela Vista no dia 20 de julho de 1900 e veio para Santa Rita ainda moça para se alfabetizar. Com apenas quinze anos, Adélia casou-se com Mário Palma e teve sua primeira filha, Almehy, um ano depois. Era uma família feliz. Os três moravam em uma casa em frente à Estamparia até que, pouco depois de completar 17 anos, Adélia ficou viúva e foi obrigada a encarar a vida sem a proteção do marido.
Um novo começo

Passados dez anos, Adélia resolveu se casar novamente. A linda moça não tardou a despertar o amor de um músico chamado Pedrinho Dias, que se tornou seu companheiro. Mais uma vez amparada por uma companhia, Adélia teve a chance de ser feliz novamente.
Um fato inacreditável

No período de um ano, um fato incrível passou a acontecer na vida do casal. A moça tinha sonhos constantes com números. Ao acordar, ela contava a Pedrinho o seu sonho e ele tratava de sair à procura de bilhetes de loteria com tais dígitos. Sempre que encontrava os bilhetes, ele comprava a cartela toda e aguardava o resultado. O mais inacreditável foi que, em poucos meses, o casal acertou na loteria federal 3 vezes seguidas. Juntos, faturaram 300 mil Réis, uma fortuna para a época e se tornaram muito ricos. Com a bolada que receberam, Pedrinho e Adélia puderam realizar um grande sonho: comprar uma das mais bonitas casas de Santa Rita.
A casa

Ninguém sabe ao certo porque  o Senhor Machado, um reconhecido construtor responsável por algumas das mais belas residências que Santa Rita já teve, resolveu ir embora da cidade. Algumas pessoas da época dizem que ele teve um desgosto tão grande que resolveu vender sua residência com todos os móveis dentro. O comprador foi Pedrinho, que mudou imediatamente com sua esposa para a casa que sempre sonharam.

A residência possuía uma arquitetura lindíssima. Os móveis, todos da melhor qualidade, compunham o ambiente e davam um ar ainda mais elegante à fina residência. Já no quintal, 37 jabuticabeiras e três mangueiras ofereciam um charme ainda maior à acolhedora morada. O amplo terreno, que fazia divisa com o seminário era sempre ocupado pelos alunos que usavam o imenso jatobá ao lado da cerca como escada para suas invasões.
Novamente sozinha

Tudo corria às mil maravilhas até que, pouco tempo depois de mudarem para a nova residência, uma tragédia interrompeu aquela história de amor. Um ano depois de se casarem, Pedrinho morreu deixando Adélia com apenas 28 anos e viúva pela segunda vez.
Como Pedrinho tinha uma família numerosa e três irmãs solteiras que viviam de crochê, Adélia decidiu abrir mão de sua fortuna e comprar uma casa para cada uma delas. Da renda obtida no jogo, a jovem senhora investiu no amor que nutria pela família do marido e ficou apenas com a casa localizada na Avenida Delfim Moreira.
A prática da caridade

Desde então, Adélia passou a praticar a caridade e ajudou muitas pessoas carentes. Incontáveis eram os necessitados que recebiam o conforto material e espiritual de que tanto precisavam.
José Sustenido

Na segunda metade da década de 30, José “Sustenido”, irmão de Pedrinho, foi mais um beneficiado com a generosidade dessa grande senhora. Por muitos anos, utilizou o Porão de Adélia Duarte como gabinete dentário, onde recebia diversos pacientes, todos os dias.
A revolução de 32

Conta-se que, durante a Revolução de 1932, quando os paulistas marcharam em direção ao sul de Minas, poucas foram as pessoas que ficaram na cidade. O medo de um ataque iminente fez com que grande parte dos santarritenses debandasse para a zona rural em busca de abrigo. Dos que ficaram, Monsenhor Calazans e Adélia Duarte ajudaram a acalmar os conterrâneos.
Os visitantes

Por ser muito receptiva, inúmeros eram os visitantes que a procuravam em sua residência. Dentre todas as pessoas que iam até à sua majestosa  casa diariamente para tomar um café e conversar sobre a vida, dois deles Adélia reconhecia pela maneira peculiar com que tocavam o sininho ao lado portão: Chiquinho Carteiro e Daltinho Dias.

No final dos anos 50, Adélia acolheu em sua casa sua irmã que se tornara viúva e um afilhado. Desde então, a nova moradora da casa, Dalila Duarte, passou a utilizar o porão da residência como ateliê e tornou-se muito conhecida pelos lindos vestidos de noiva que criava. Não se sabe ao certo quantos bouquets foram feitos com o lindo pé de camélia plantado na entrada daquela acolhedora casa. A costureira e seu filho moraram com Adélia por mais de 10 anos.
A festa de 1957

Em 1957, Dona Sinhá Moreira realizou a mais bonita Festa de Santa Rita de que se tem notícia. Para ajudar a amiga festeira, Adélia logo ofereceu sua casa para que fossem preparados os cartuchos e doces. Grande parte das guloseimas servidas aos visitantes durante aquela festa  inesquecível foi feita por Adélia e por sua sobrinha Ritinha Duarte.
O término de uma existência

Em 1966, Adélia foi acometida por um terrível câncer no colo do útero. Como naquela época o tratamento ainda era muito precário, no dia 27 de setembro de 1968 a benevolente senhora foi vencida pela enfermidade. Chegava ao fim uma trajetória de lutas, em uma vida marcada por inumeráveis exemplos de caridade e resignação.
Os novos moradores

Com a morte da querida Adélia, sua casa ficou fechada por mais de um ano. Naquele período, alguns moradores tinham medo de passar por ela. Em 1969, Almehy e seu marido, José Estulano Cruz Filho, herdeiros da residência, realizaram uma pequena reforma e se mudaram para lá.

No ano de 1975, José Estulano abriu uma pequena rua ao lado da casa, loteou e, em homenagem à querida senhorinha que ali residiu, colocou o nome do lugar de Vila Adélia, que hoje possui cerca de 10 residências.
 
Atualmente, quem vive na imponente morada é o neto de Adélia, Robinson Cruz, que retornou à residência para cuidar dos pais. Desde então, no mesmo porão onde noivas ganharam lindos vestidos e onde José Sustenido tratava de seus pacientes, Robinson montou seu consultório de estética.

Em 2000, ano em que Adélia completaria 100 anos, Robinson realizou uma bonita homenagem a avó, ao plantar novamente todas as flores que existiam no jardim enquanto ela ainda era viva. A mistura de cores exuberantes trouxe vida ao rico canteiro e ajudou a adornar ainda mais aquela residência onde viveram tantos sonhos,  lutas e desafios. 

(Texto baseado nos depoimentos de Robinson Cruz e Elisa de Melo Pereira)