sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Jader conta como sobreviveu a tiros, raios e experiências de outro mundo

Como era sua infância em Santa Rita?

Tivemos uma infância ótima. Era uma cidade pequena e não tínhamos os problemas de hoje. As pessoas eram mais amigas, mais próximas, a criança brincava na rua e cada região da cidade tinha sua turma definida. Então você tinha a turma do morro do José da Silva, a turma da Rua da Pedra ou a nossa turminha no centro da cidade. Nossa vida se resumia em estudar, ficar com a família ou nos divertirmos no Country Clube. 

É verdade que você já levou um tiro?

Quando eu tinha uns 18 anos, já gostava muito de armas de fogo e tal. Num domingo, que era dia de jogo do Brasil, nós fomos ao sítio do pai do Mário Dimas, atrás do Inatel, para praticar tiro ao alvo. Por acidente, a arma, que era de calibre 22, disparou e eu acertei um tiro em mim mesmo! Foi uma coisa grave, porque tiro de 22 é igualzinho bala de garrucha: aquilo atinge vários órgãos e compromete tudo. Eu cheguei ao hospital quase em coma, com hemorragia interna e tive que ser internado em emergência. Para minha sorte, naquela época, o hospital daqui tinha um ótimo centro cirúrgico e o doutor Kallás, que até cirurgia cardíaca fazia na cidade, estava em Santa Rita com vários outros médicos e puderam salvar a minha vida. 

A bala atingiu a pleura, pulmão, fígado, intestino e o baço. Portanto, se, algum dia, você ouvir dizer que o meu fígado não é bom por conta do meu estilo de vida boêmio cometerá uma grande injustiça, porque é por conta desse tiro de 22!

Também foi atingido por um raio?

Nesse episódio, fui com o Mário Dimas a uma fazenda do Bom Retiro e, na volta, quando descemos a serra debaixo de chuva, coloquei a mão numa porteira de arame farpado e caiu um raio. Eu acordei, algum tempo depois, a uns 2 metros de onde eu estava, de costas no chão, sem me lembrar de nada! Foi o Mário quem contou que eu tinha acabado de levar uma descarga de raio.

Você já foi declarado morto por alguns minutos?

Eu sempre ouvia dizer que a pessoa que tem experiência de quase morte, sempre se deparava com uma luz branca, túnel colorido e não sei o que mais. Muitos diziam caminhar por um ambiente iluminado, conversar com amigos que já morreram e aquilo me deixava curioso. Na experiência que eu tive, não aconteceu nada disso. Quando eu tomei uma anestesia geral por conta de uma operação que eu fiz, tive parada cardiorespiratória que me deixou oficialmente morto por alguns minutos, mas eu não vi túnel branco nenhum!

Entre tiro, raio e câncer, acabei me recuperando de todos e estou aqui levando a vida. A conclusão que eu tirei é que, ou alguém lá em cima gosta muito de mim, ou me detesta porque não quer me ver lá de jeito nenhum!

Conte-nos sobre o Bloco Xavascos

Era Pirokos! Lembro que na época do bloco nós saímos pedindo um dinheirinho na cidade pra gente engraxar a garganta. Uma das pessoas que nós encontramos foi o Padre José.  Nós pedimos para ele assinar o livro de ouro, mesmo se não fosse realizar a doação para dar importância aos contribuintes do bloco. Ele disse que iria participar, mas queria saber o que significa o nome. Na hora, alguma pessoa inventou que era uma junção das palavras “pirados” e “loucos”, mas sabíamos que não era bem isso... 

Naquele ano, nós resolvemos fazer uma paródia do Sidney Magal e arrumamos um Aero Willys sem capota. O Márcio, filho do professor Francisco, vestiu de Magal e ficava dublando, o Iroman era motorista, eu fui de segurança e o resto da turma ia bêbada, em volta do carro, fazendo anarquia. 

Mais tarde, nós tivemos outro bloquinho chamado Sanatório Geral. A camiseta daquele ano foi uma ilustração do Sarney, atrás das grades, com a inscrição “Cinco anos para Sarney”.
Você frequentou a  Temporada Lírica?

Tomei conhecimento da Temporada Lírica quando frequentava a pracinha da Tia Elza onde tomávamos cerveja, tocávamos violão e jogávamos conversa fora. Naquela época, o Cyrinho com os seus amigos, também iam lá e, com o passar do tempo, acabamos nos tornando amigos. Um dia, eu tive a honra de ser convidado para a famosa Temporada Lírica e tomei parte na segunda geração do evento. A primeira era formada pelo Paulo Jacaré, Ditinho Valim, Pipico, Teco, Pingo, Paulo Renato, Toninho de Franco, Marcos Baracat, Rubens Carvalho e outros. 

Quem criou o nome foi o Ditinho Valim, e aquele título acabou gerando especulações sobre o que era feito no local. Muitos achavam que íamos lá para escutar ópera ou declamar poesias, mas não era nada disso. O Cyro tinha uma discoteca muito grande e toda a vida foi um grande apreciador de música. Então as pessoas iam lá para ouvir um som, tomar uma cerveja e bater papo. O evento acontecia sempre na época de frio, quando o seu pai, o Doutor Cyro, ia com a esposa passar uma temporada no Rio de Janeiro por conta da asma. Se ele ficasse dois ou três meses fora, a turma invadia a casa e só saía quando ele voltava. 

Essa turma também frequentava outros bares?

Antes do Bar da Tia Elza, essa mesma turma frequentava o Bar do Zé Roberto, que chamávamos de “Bunda de Fora”, ali na rua da ponte. O nome verdadeiro do estabelecimento era “Pastelaria Indyana”.

Tem algum causo sobre seus anos de defensoria?

O Fórum é um ambiente formal, mas de vez em quando acontecem alguns casos muito engraçados. Talvez eu seja um dos decanos da Defensoria Pública mineira e, nesses 30 anos de carreira, já vi muita coisa acontecer.

No começo da minha carreira, uma mulher de meia-idade me procurou para uma consulta sobre desquite. Ela sempre foi dona de casa e o marido era um pequeno proprietário rural que vivia do que plantava. Como ela não sabia lidar com terra, veio perguntar se tinha direito à pensão. Quando eu contei que ela tinha todo o direito, ela me falou: “Eu sabia! O meu marido não quer me dar, mas eu até já escolhi! Tem uma pensão pra vender aqui na rua de ponte que é do jeitinho que eu quero!”

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